Análise da Atualidade: A Türkiye e a Organização para a Cooperação de Xangai

Análise elaborada pelo Diretor de Investigações de Segurança, o Prof. Dr. Murat Yeşiltaş da SETA

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Análise da Atualidade: A Türkiye e a Organização para a Cooperação de Xangai

Análise da Atualidade: A Türkiye e a Organização para a Cooperação de Xangai

A participação do Presidente Erdogan na cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai realizada na cidade de Samarcanda, no Uzbequistão, na semana passada, conduziu a um novo debate na política externa da Türkiye.

O facto de esta ter sido a primeira reunião frente a frente, após a pandemia de Covid-19, e especialmente após a intervenção da Rússia na Ucrânia, a participação da Türkiye nesta reunião, pela primeira vez, a nível presidencial, é importante em muitos aspetos. O facto de a Türkiye ser membro da NATO e ter o estatuto de país candidato à adesão à União Europeia, e de a organização ser vista como uma estrutura económica contra o Ocidente, torna controversa a participação da Türkiye nesta organização. Tendo o Presidente Erdogan declarado, que a Türkiye, tem como objetivo tornar-se um membro da organização, torna este debate ainda mais importante.

 

Mas será que a Türkiye vê realmente a OCX como uma "alternativa" ao Ocidente? É difícil responder a esta pergunta com um “sim” categórico.

 

Há muitas razões para o desejo da Türkiye de participar na OCX. Um dos primeiros pontos a ser sublinhado é que este desejo não é um desejo novo. A Iniciativa Nova Ásia (Yeniden Asya), anunciada pela Türkiye em 2019, é vista como parte de uma nova busca da política externa da Türkiye. Há dois motivos importantes para esta iniciativa. A primeira é melhorar as relações bilaterais da Türkiye com os países da região, através da Iniciativa Nova Ásia. Neste contexto, a Türkiye quer aumentar o seu atual volume de comércio com os países da região, intensificando as suas relações económicas. Pensa-se que isto irá aumentar as exportações da Türkiye e estabilizar o seu crescimento económico.

 

O segundo motivo é a participação ativa da Türkiye em organizações regionais. A transformação da Organização do Estado Turco numa organização intergovernamental oficial, dando um passo no sentido da institucionalização, deve ser considerada como parte da iniciativa Nova Ásia da Türkiye. A OCX também deve ser considerado neste contexto. O facto de a Türkiye estar geopoliticamente localizada no centro do "Corredor Central", no âmbito do projeto de longa data da China "Um Cinturão, Uma Rota", torna o papel da Türkiye na OCX ainda mais importante.

 

Outro ponto que deve ser sublinhado, em termos da vontade da Türkiye de participar na OCX, é que o ambiente de segurança da Türkiye tem vindo a sofrer uma transformação abrangente nos últimos anos. A tensão crescente entre a Türkiye e a Grécia, com os EUA e a Europa ao lado da Grécia, os EUA a levantar o embargo de armas à administração cipriota grega do sul de Chipre, e as bases militares dos EUA na Grécia, causam a preocupação da Türkiye. Por outro lado, as relações dos EUA com o PKK/YPG na Síria e a situação na Síria em geral, tornam a fronteira sul da Türkiye vital para a segurança nacional do país. Neste momento, a não obtenção de êxito total do apoio do Ocidente, é também preocupante para a Türkiye. A guerra em curso na Ucrânia é também muito importante para a segurança da Türkiye no Mar Negro. Considerando a tensão entre o Azerbaijão e a Arménia e o risco de guerra, verifica-se que o ambiente de segurança da Türkiye tem muita atividade. Quando o Iraque e o Mediterrâneo Oriental se juntam a estas áreas de tensão, torna-se extremamente importante para a Türkiye estabelecer boas relações com os Estados membros no contexto da OCX. Evidentemente, a adesão à organização não constitui uma base para resolver diretamente os problemas de segurança nacional da Türkiye. No entanto, é extremamente importante para a Türkiye manter um equilíbrio na política internacional, face à possibilidade de uma maior deterioração das suas relações com o Ocidente.

 

Outra questão que deve ser tida em conta nas declarações da Türkiye em relação à OCX, é a opinião da Türkiye, de que o plano internacional está a sofrer uma transformação. Esta visão, que se tornou mais clara, especialmente com a pandemia global, levou ao domínio da ideia de que o poder, no plano internacional, está a mudar do Ocidente para a Ásia. A Türkiye também quer desempenhar um papel na geopolítica asiática, a fim de estar melhor preparada para este processo de transição de poder. A Türkiye, pode vir a ser uma potência eficaz na Ásia, devido à sua participação em temas atuais da política externa e à sua crescente importância geopolítica. A OCX é vista como uma plataforma importante para demonstrar esta eficácia.

 

Os três importantes pontos acima mencionados sugerem que a Türkiye não vê a OCX como uma alternativa às suas relações com o Ocidente, mas sim como um complemento às suas relações com o Ocidente. Por outro lado, a abertura da OCX significa uma expansão de escala na política externa da Türkiye. Além disso, a OCX não é nem uma organização político-económica como a União Europeia nem uma organização de defesa como a NATO.

Por conseguinte, a opinião de que a Türkiye desviou o seu eixo do Ocidente, em virtude da OCX, não é correta.

 



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