O coronavírus e o futuro do sistema global

O coronavírus é um problema de saúde global que diz diretamente respeito à segurança humana.

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O coronavírus e o futuro do sistema global

A epidemia do novo coronavírus (Covid-19), que surgiu na cidade chinesa de Wuhan, em janeiro, e se espalhou pelo mundo em apenas três meses, causou impactos que abalam profundamente o sistema global.

A política mundial testemunhou vários eventos globais na última década. Com o 11 de setembro, o sistema global teve que enfrentar uma crise de segurança. A seguir, a crise de segurança global aprofundou-se com o surgimento e a disseminação do DAESH. Em 2008, todos enfrentaram uma crise financeira global. Embora já tenham passado mais de dez anos, o sistema global piorou em vez de melhorar; os indicadores económicos voltaram a ser negativos. De facto, quando a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China ameaçou a ordem económica global, as expectativas sobre o surgimento de uma nova crise global aumentaram gradualmente.

Problemas profundos, como crises políticas globais, a ascensão da extrema direita, a perda do papel das instituições internacionais e a crise síria, fizeram com que o futuro do sistema global fosse posto em questão. No entanto, ninguém opiniou que um futuro sombrio e incerto aguardava o sistema global. No entanto, a epidemia de coronavírus sinaliza uma crise mais profunda do que o esperado e torna o futuro do sistema global cada vez mais incerto.

Antes de mais, o coronavírus é um problema de saúde global que diz diretamente respeito à segurança humana. A segurança humana tem sido abordada como um dos principais temas da política e segurança mundiais desde os anos 80. A epidemia de coronavírus começou a produzir efeitos para além da segurança humana e da saúde pública global. O primeiro e mais importante impacto do vírus é, sem dúvida, sentido na economia global. Parece que a economia global já foi abalada devido à incerteza sobre quanto tempo a epidemia vai durar, quando poderá ser controlada, os danos que causará à saúde humana e se a epidemia poderá voltar ou não. O declínio no crescimento chinês, a interrupção da produção chinesa em algumas áreas, bem como o facto das principais economias da Europa - como Itália, França, Alemanha e Espanha - estarem em declínio devido ao coronavírus, fez mobilizar atores como os Estados Unidos. Os mercados não responderam positivamente à maciça intervenção de 700 mil milhões de dólares da Reserva Federal Americana (FED). O ex-economista do FMI Kenneth Rogoff, uma das principais figuras do mundo da economia, considera que a economia mundial terá uma recessão. Por sua vez, o Oxford Research Institute afirmou que os países em desenvolvimento, que têm dívida externa, terão dificuldade em pagar as suas dívidas.

Por outro lado, a FED iniciará o programa de flexibilização quantitativa, um método que não é normalmente aplicado. Por seu lado, a França anunciou um orçamento suplementar gigantesco de 500.000 milhões de euros, para combater o coronavírus. As medidas tomadas não diminuem a recessão económica, porque os mercados reais estão em declínio. Ao ritmo atual, não parece possível que a economia global possa recuperar nos próximos dois anos. Esta situação pode terminar com uma depressão económica e o colapso de países com economias frágeis. Por isso, o surto de coronavírus pode arrastar a economia global para uma depressão histórica e não apenas para uma crise, e pode levar ao surgimento de uma nova situação estrutural.

A segunda dimensão do coronavírus, diz respeito ao futuro do sistema global e está diretamente relacionada com a segurança global. Como o Governo da República da Turquia indicou, "O problema é global, mas a luta é nacional". A Turquia apela a todos os países que adotem um método de luta para se salvarem principalmente a si mesmos. Cada país deve agir para se salvar a si e aos seus cidadãos.

A China, os Estados Unidos, Itália, França, Espanha e muitos outros países europeus, começaram a tomar medidas muito drásticas. A Turquia também está entre os países que adotaram medidas mais fortes desde o início. Todos os países estão prestes a fechar as suas ligações aéreas. A França anunciou ter fechado todas as suas fronteiras terrestres. Por sua vez, o Reino Unido segue uma estratégia de medidas diferentes do geral da Europa e do mundo. Mas as notícias mostram que o pânico está-se a espalhar todos os dias entre os britânicos. Por outro lado, a França suspendeu a segunda ronda das eleições municipais, a Espanha anunciou a nacionalização dos hospitais privados. Na Holanda, o primeiro ministro fez o primeiro discurso ao país pela televisão desde a crise do petróleo em 1973. Nas regiões americanas mais afetadas pelo vírus, as pessoas compraram mais armas. Ao ritmo atual, o ambiente de pânico pode levar a problemas profundos de segurança nacional numa primeira fase, e depois a consequências que desencadeiam problemas intra e interestaduais.

A epidemia de coronavírus abalou profundamente dois fatores sistémicos fundamentais, como a economia global e a segurança global. Estes fatores podem afetar diretamente a forma como o futuro do sistema global será moldado. Parece que o que acontecerá a partir de agora, se tornará um processo de resistência para todos os atores. A primeira resistência será ao nível individual, através das economias dos países. Economias poderosas não terão o problema de pressão financeira sobre as medidas a serem tomadas contra a epidemia; no entanto, as flutuações na economia global afetarão mais essas economias. As economias fracas não terão muito a perder de qualquer maneira. O segundo teste de stress será sobre a psicologia social e individual. O aumento do número de pessoas em pânico poderá gerar atitudes de pânico na sociedade e criar consequências que pode causar o caos político. Por isso, as sociedades com forte resistência social irão superar este processo com menos danos.

O terceiro teste será baseado na resistência do estado. Os estados institucionalizados, com procedimentos padrão e um mecanismo robusto de tomada de decisão, vão superar este período com menos danos. Por outro lado, os estados fracos enfraquecerão ainda mais e talvez se tornem estados indefesos.

Quando o surto terminar, o mundo provavelmente enfrentará uma ruína global. Juntos, veremos que tipo de base será criada sobre essa ruína, para estabelecer uma nova ordem global.

*Este programa é da autoria do escritor Prof. Murat Yeşiltaş, diretor de investigações de segurança da Fundação SETA



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