A Líbia, depois da Cimeira de Berlim

A Cimeira de Berlim formou uma plataforma diplomática para um acordo entre os atores, mas não houve conciliação completa.

A Líbia, depois da Cimeira de Berlim

A Cimeira da Líbia, realizada na semana passada na capital alemã de Berlim, garantiu por enquanto o fim dos combates na Líbia. Mas não gerou um resultado que resolvesse completamente a crise no país. Para uma solução na Líbia, os atores relevantes da comunidade internacional, bem como os atores regionais e os atores locais, devem todos chegar a um acordo.

A Cimeira de Berlim formou uma plataforma diplomática para um acordo entre esses atores, mas não houve conciliação completa. O suposto Exército Nacional da Líbia, sob a liderança de Khalifa Haftar, realiza operações militares desde abril para derrubar o governo de Acordo Nacional da Líbia, o único representante do país que é legitimamente reconhecido pelas Nações Unidas.

Os Emirados Árabes Unidos em particular, bem como o Egito, a Arábia Saudita e a França, apoiam Haftar. É uma grande ironia que a França apoie o golpista Haftar, porque a França - um dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – está a apoiar os crimes de guerra cometidos por Haftar na Líbia e tolera uma operação ilegítima contra o governo reconhecido pela ONU.

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Egito estão entre os principais países que apoiam o general Haftar. As forças de Haftar assumiram o controle de uma parte importante do país, graças à base aérea dos Emirados Árabes Unidos na Líbia. Durante este processo, o Egito prestou apoio militar a Haftar e também colocou os seus próprios soldados no terreno. Os Emirados Árabes Unidos, o Egito e a Arábia Saudita são a favor de uma administração autoritária e militar na Líbia. Esta passou a ser a política fundamental desses países, depois da Primavera Árabe.

De acordo com a declaração de 55 artigos divulgada após a Cimeira de Berlim, entende-se que o atual equilíbrio militar no terreno poderia gerar mais resultados a favor de Haftar e dos seus apoiantes. Porque a declaração final ignora as intervenções militares ilegítimas de Haftar e faz dele um ator legítimo. Na situação atual, entende-se que muitos atores externos, principalmente o Egito e os Emirados Árabes Unidos, que investem em Haftar, queiram fazer durar o impacto político e militar de Haftar em Trípoli. Desta forma, Haftar deseja ter uma voz sobre o futuro do país, assumindo o controle do Ministério do Petróleo e do Banco Central da Líbia. Mais importante ainda, embora na declaração final da Cimeira de Berlim tenha sido dada uma mensagem sobre a continuação do embargo de armas pesadas à Líbia e sobre a retirada dos elementos estrangeiros no país, pode-se dizer que os Emirados Árabes Unidos não obedecem a estas decisões. Isso complica ainda mais a situação no terreno e também a solução política.

A Turquia, o país que dá apoio ao Governo de Acordo Nacional da Líbia (GAN), durante a crise no país preferiu adotar uma atitude a favor da solução política na Cimeira de Berlim. Embora a Turquia não tenha ficado satisfeita com todos os artigos do comunicado final, manteve-se do lado do GAN e mostrou que o governo líbio não está sozinho. Se a Turquia não se tivesse envolvido neste processo, estaria iminente a entradas das forças de Haftar na capital, onde assumiriam o controle de Trípoli.

O acordo, assinado pela Líbia e Turquia em 27 de novembro de 2 019, foi amplamente implementado. A Turquia, tanto a nível militar como diplomático, é uma das partes mais importantes na questão da Líbia. Ancara sabe que resolver o problema militarmente é impossível e fez um apelo mais forte em Berlim, por uma solução diplomática.

A Cimeira de Berlim não ofereceu uma solução permanente para o problema da Líbia, mas mostrou qual o roteiro que deve ser seguido a partir de agora. Se Haftar e os seus apoiantes insistirem numa solução militar, essa situação poderá aprofundar ainda mais a crise na Líbia. Esse entendimento poderia causar uma grande crise regional, como a crise síria, e aprofundar e desestabilizar a região. Portanto, é preciso olhar para a Cimeira Berlim como uma oportunidade.

 

*Este programa foi elaborado pelo escritor e investigador Prof. Murat Yeşiltaş, diretor de Pesquisa de Segurança da Fundação SETA



Notícias relacionadas