As migrações nos Balcãs

A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit, em Ancara.

As migrações nos Balcãs

A 5ª edição do Simpósio Internacional de Ciências Sociais decorreu na semana passada na Universidade Internacional dos Balcãs, em Skopje, sob os auspícios e presidência honorária do presidente da Grande Assembleia Nacional da Turquia, Mustafa Sentop.

Eu fiz um discurso acerca da juventude, enquanto orador convidado para este simpósio, que reuniu 617 académicos de 13 países. Durante o simpósio tive também a oportunidade de falar com investigadores turcos das maiores universidade americanas, incluindo Harvard, e de trocar longas opiniões com eles sobre o Instituto de Ensino Superior da Turquia (YOK) e o nosso sistema universitário.

Mas esta semana vou abordar a questão das migrações nos Balcãs, pois este assunto é sempre um tema em destaque em todas as minhas visitas à região. Todos os visitantes dos Balcãs, falam desta história triste que remonta aos últimos anos do estado otomano.

 

A breve história das migrações nos Balcãs ou verdadeira definição de genocídio...

Segundo várias fontes, milhões de muçulmanos e turcos nos Balcãs foram vítimas de genocídio, massacres e migrações forçadas, a partir do século XVIII. Os turcos e muçulmanos nos Balcãs tiveram uma triste sorte, quando o estado otomano se retirou e desintegrou.

A expressão "genocídio" foi usada pela primeira vez após a II Guerra Mundial, para definir a opressão, os massacres e torturas coletivas aplicadas pela Alemanha contra os judeus. Mas as opressões que conhecemos nos Balcãs são muito mais graves e numerosas que as aplicadas aos judeus pela Alemanha. E mesmo na Turquia, poucos são aqueles que têm consciência da dimensão deste genocídio e desta opressão. Nem sequer foi realizado até hoje um filme candidato a um Oscar, para transmitir às gerações futuras e aos descendentes dos oprimidos, o sofrimento, a dor e as migrações pelas quais estas pessoas passaram no século XVII. É certo que o nosso povo não tem por hábito chorar por todo o lado acerca dos sofrimentos por que passou, para disso tirar proveito.

Por muito grande que tenha sido, é preciso saber enterrar o sofrimento no coração e continuar o nosso caminho... Mas mesmo que o nosso povo não tenha feito um filme ou documentário, compensa como quase sempre guardar este conhecimento na nossa grande memória e grande coração. Através de poemas, cantigas anónimas e hinos, transmitimos este sofrimento às gerações futuras de uma forma mais eficaz, do que através de um filme vencedor de Oscars, e sem criar ódio. Poderia algum filme ser mais eficaz que as canções de Çanakkale e do Iémen ou do que o hino de Pleven, que nos fazem vibrar os corações?

Infelizmente, a migração forçada para fins políticos, continua. Observamos atualmente casos semelhantes em várias regiões de interesse para os turcos e muçulmanos. Os problemas de ontem dos turcos da Bulgária e dos turcos de hoje na Crimeia, em Nagorno-Karabakh e também a questão uigur, bem como a opressão sobre os muçulmanos de Myanmar, na Síria e obviamente na Palestina, não são diferentes dos problemas dos turcos nos Balcãs.

 

A evacuação dos Balcãs

Uma parte importante das nossas discussões a cada visita aos Balcãs, diz respeito às migrações na Turquia. Os movimentos migratórios que começaram na época otomana, não ficaram por aí e continuaram durante o período republicano. Estes movimentos continuam hoje em dia, ainda que sob diferentes formas. A presença turca nos Balcãs cai de dia para dia.

A Turquia é como a esperança e um sonho para os turcos e muçulmanos dos Balcãs. Ser uma minoria num canto do mundo implica muitas dificuldades. É preciso dar um apoio forte quando se é uma minoria, e este apoio não tem que ser necessariamente material. De facto, as explicações de Salih Murat, com quem fizemos uma reportagem na Rádio Voz da Turquia e que é membro do Tribunal Constitucional da Macedónia do Norte, resume na perfeição a situação: "Nós não pedimos nada à Turquia. Enquanto a Turquia continuar o seu caminho de forma poderosa, basta-nos o seu ombro".

Os turcos dos Balcãs desejam muito ter uma ligação com a Turquia. Uma parte dos seus filhos procura o seu futuro no nosso país. Mas os turcos balcânicos com um olhar mais estratégico sobre as coisas, estão incomodados com mais do que simplesmente partir. Pois cada migração dos Balcãs para a Turquia, empurra-os para a solidão e para a incerteza.

Tal como frequentemente no passado, a migração de 500 mil pessoas dum país balcânico com apenas 2 milhões de cidadãos, não representa grande coisa na demografia da Turquia. Mas este número representa um quarto da população do país de partida. As pessoas que aí resistem, ficam abandonadas à sua solidão. Tal como vimos claramente no passado, eles sublinham frequentemente que a imagem dos Balcãs poderia ser muito diferente, se os turcos dos Balcãs lá pudessem ter continuado a viver.

 

A política certa é reforça-los no seu lugar...

Não podemos regressar ao passado nem viver no passado. Mas podemos tirar dele lições para o tempo atual.

O imigrantes nos Balcãs precisam com urgência de preservarem as suas memórias, edifícios e património dos seus antepassados, nas terras que abandonaram. Esta missão não pode ser deixada apenas aos esforços de entidades públicas como a TIKA (Agência Turca de Cooperação e Coordenação), ao YTB (Presidência para os Turcos no Estrangeiro e Comunidades Relacionadas), nem nas mãos de fundações como a Yunus Emre ou Maarif. Enquanto herdeiros do património deixado pelos seus antepassados, os turcos e muçulmanos nos Balcãs esperam que os emigrados dos Balcãs regressem, e discutem com frequência entre eles e partilham os seus problemas.

Os migrantes dos Balcãs podem também desenvolver relações multilaterais com os seus vizinhos não muçulmanos, deixando de lado os sofrimentos. Num contexto em que a Rússia e os países da UE dedicam um interesse crescente aos Balcãs, as relações que poderão interessar aos imigrantes dos Balcãs na Turquia irão criar uma nova alternativa com os seus antigos vizinhos. As pessoas oriundas dos Balcãs e que se estabeleceram na Turquia, podem servir de ponte não apenas entre a Turquia e os países balcânicos, mas também entre os Balcãs e o resto do mundo.

Naturalmente, quando falamos de migração, existem vários aspetos a considerar. Aqueles que imigram sobretudo para a Europa por razões económicas, o regresso e os esforços das minorias de origem turca na Crimeia e no Cáucaso, a questão uigur e os turcos mesquetes. Todos estes são assuntos diferentes.

Esta foi a análise sobre este assuntodo Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit, em Ancara



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