Que abordagem deveremos adotar em relação à China?

A análise do Prof. Dr Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciência Política da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara.

Que abordagem deveremos adotar em relação à China?

O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, fará uma visita oficial à República Popular da China após a Cimeira do G20 que terá lugar no Japão, no final de junho.

Por se tratar de uma visita de alto nível, não sei o que dizem sobre esta visita os media chineses. Mas na Turquia, constato a emergência de uma agenda oposta à da China. A questão uigur é o principal tema da agenda na Turquia.

Desconheço quantas das notícias sobre este tema são verídicas, quais destas notícias são influenciadas pelos media ocidentais ou se pretendem ensombrar as relalções entre os dois países. No entanto, todas estas notícias apontam para uma visão confusa da China.

No artigo desta semana, vou abordar a perspetiva mais alargada que deveremos adotar face à China, mesmo que se trate de um esforço difícil. De facto, esta confusão não é benéfica nem para a Turquia, nem para a China, nem para os uigures. Apenas aumenta a incerteza entre todas as partes.

Fizemos uma visita de trabalho à China entre 12 e 20 de junho deste ano, a convite da Embaixada da China em Ancara e por iniciativa do IRAM, composto por instituições de pensamento estratégico, académicos e representantes dos media. O nosso grupo foi composto por 7 pessoas. Vou partilhar as minhas observações pessoais acerca dos programas sociais em Pequim, Xangai e Hangzhou, bem como as reuniões com instituições importantes e responsáveis da China.

 

A Perspetiva Geral

Com 1,4 mil milhões de habitantes, a China tem 20% da população mundial e o seu território é maior que alguns continentes.

A primeira coisa que me impressionou na China, foi o nível de repartição do rendimento e o facto duma boa parte dos problemas com infraestruturas de base terem sido resolvidos. O rendimento médio, de 10 000 dólares per capita, nota-se por todos os sítios onde fomos. Podemos vê-lo nas estradas, infraestruturas, nos carros, nas lojas e nas marcas.

Em Pequim e Xangai, não nos sentimos verdadeiramente na China. Estas cidades não são muito diferentes das cidades japonesas ou ocidentais. É nas zonas rurais que se pode sentir melhor a China.

Não vimos uma urbanização selvagem na China, algo que encontramos frequentemente noutros países. Os arranha-céus nos centros das cidades, que afetam a textura histórica, a identidade e o clima das cidades de alguns países, não são verdadeiramente incomodativos na China. As grandes avenidas e parques, as grandes árvores, os espaços verdes e a arquitetura bem concebida, dissipam o efeito sufocante dos edifícios altos. O fenómeno dos arranha-céus, abafa com frequência a identidade das cidades. Mas em Pequim e Xangai, estes edifícios foram concebidos em harmonia com a arquitetura, a natureza e o ambiente, dando identidade às cidades.

Devido à sua enorme população, os visitantes esperam encontrar um caos denso como na Índia. Mas não é assim. Na China há menos pessoas na rua do que em Istambul. A diferença entre Xangai, com 25 milhões de habitantes, e Pequim com 22 milhões, é como entre Istambul e Ancara. Uma das cidades é mais global e integrada com a comunicação e cultura mundiais, enquanto que a outra é mais recolhida, ordenada, fria e assética…

Na China, salta à vista a falta de standardização no desenvolvimento rápido. Podemos encontrar muitos bons exemplos, mas também muitos maus exemplos, em particular no setor dos serviços.

 

A segunda maior potência económica, que avança rapidamente para se tornar na maior potência mundial

A China é a segunda maior potência económica do mundo, só atrás dos Estados Unidos. O seu peso na economia mundial era de 18,7% em 2 017, face a apenas 1,8% em 1 978. A China tem as maiores reservas de moeda estrangeira do mundo, avaliadas em 3,12 triliões de dólares. O crescimento da economia chinesa em 2 018 foi de 6,6%. E de acordo com as previsões, o país representará 20% do PIB mundial em 2 050, tendo atrás de si a Índia e os Estados Unidos. Nessa altura, a UE representará apenas 9% do PIB mundial.

Este desenvolvimento económico reflete-se também na vida social. Entre 1 949 - a data da criação da República Popular da China – e 1 978, o ano da abertura económica chinesa, apenas 200 mil chineses puderam viajar ao estrangeiro. Mas só em 2 018, 130 milhões de chineses viajaram ao estrangeiro.

 

Uma civilização material e tecnologicamente avançada

Podemos dizer que a China é um país muito desenvolvido no plano material e tecnológico. É possível constatar isso na vida quotidiana na China. O centro de investigação da Huawei, que nós visitámos, está a trabalhar em conceitos como cirúrgias à distância, agricultura à distância, carros autónomos e outros.

 

A Identidade, a cultura, a pertença perdida ou será possível uma modernidade do tipo chinês?

A civilização material e tecnológica não é inacessível. A experiência da Turquia mostra que o aspeto material dum país pode mudar completamente no espaço de 10 ou 15 anos. O que é importante saber, é até que ponto a essência desta civilização material se reflete na nossa identidade e cultura. Eu perguntava-me, antes de visitar a China, se o país conseguirá vencer o desafio de conservar a sua identidade na sua caminhada para se tornar uma super potência, e se a China seria capaz de produzir uma modernidade que lhe é característica, ou se por outro lado, se caíria na modernidade ocidental, como vemos noutros exemplos.

A minha curiosidade foi respondida, pois constatei que a cultura ocidental, as empresas, a moda e o estilo ocidental estão no primeiro plano do rosto moderno da China. Não existem praticamente fotos de modelos de aparência chinesa nas revistas. A China pode ser uma super potência, mas do ponto de vista cultural, no momento atual, a sua identidade e civilização, não lhe são peculiares. Desta perspetiva, a sua influência no mundo é a de um novo Japão!

 

Uma guerra comercial com os Estados Unidos?

O défice comercial dos Estados Unidos com a China foi de 419 mil milhões de dólares em 2 018. Este défice, classificado de roubo por Trump, é o principal motivo da guerra comercial entre os dois países. O superavit comercial da China face aos Estados Unidos, é equivalente a mais de metade da economia turca.

Enquanto o mundo inteiro fala da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, os chineses com que nos encontrámos, evitam classificar esta situação de guerra e preferem falar do tema com expressões mais leves. Eles consideram que foram confrontados com uma concorrência preventiva durante o mandato de Obama, e que agora estão a ser cercados por Trump. Eles estão preocupados pela amplitude que esta luta poderá assumir e dizem estar preparados para uma concorrência equilibrada.

Os chineses dizem que as trocas comerciais entre os dois países são de 800 mil milhões de dólares, e que por isso é difícil pôr fim a esta relação, e que as relações entre os Estados Unidos e a China não serão como as relações entre os Estados Unidos e o Irão.

Será a China uma super potência? As autoridades chinesas evitam classificar o país de super potência. Será devido à humildade típica dos asiáticos? Ou será uma estratégia? Não sei a resposta.

Os chineses não usam esta expressão para se definirem, pois não usam termos descritivos. Ao expressarem a sua perspetiva sobre o mundo, consideram que não são aliados de nenhum país, incluindo a Rússia, dizem apenas ser parceiros.

Esta foi a análise sobre este tema do Prof. Dr Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciência Política da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara



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