S-400 ou mudança de eixo dos Estados Unidos?

A questão dos S-400 tem na verdade a ver com as prioridades mundiais em mudança por parte do Ocidente, e dos Estados Unidos em particular. A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciência Política da Universidade Yildirim Beyazit.

S-400 ou mudança de eixo dos Estados Unidos?

Certos períodos da história revelam-se como sendo períodos determinantes. As ordens criadas durante estes ciclos, permanecem em vigor até à chegada de um período de incerteza ou de caos.

A Ordem da Wesfalia, que pôs fim à Guerra dos 30 anos na Europa, bem como a ordem da Guerra Fria - que surgiu depois da Conferência de Ialta após o fim da II Guerra Mundial - são desde logo as ordens mundiais de que nos lembramos mais facilmente. O primeiro ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Franklin Roosevelt e o líder da União Soviética, Josef Estaline, reuniram-se em Ialta em 1 945 para criarem as fundações da ordem da Guerra Fria, que ainda não foi substituída.

 

A procura por uma nova ordem mundial

Quando falamos de "ordem mundial", essa ordem não assenta necessariamente na justiça, vontade ou interesses comuns da humanidade. A ordem da justiça mundial é um assunto, uma procura e uma necessidade diferente. Quando falamos de ordem mundial, referimo-nos a um mecanismo com atores definidos e onde as partes acordam, de forma voluntária ou através da força, em criar e respeitar um sistema de funcionamento à escala mundial. A ordem mundial não assenta por isso obrigatoriamente na justiça, mas sim numa tomada de posição conhecida e onde as consequências das decisões são previsíveis.

A humanidade entrou no século XXI num estado de incerteza onde a ordem da Guerra Fria ainda não tinha acabado e em que uma nova ordem não tinha ainda começado. A ordem da Guerra Fria entre os blocos do Ocidente e do Leste, parecia ter acabado quando se começou a discutir a continuação da NATO, depois da dissolução do Pacto de Varsóvia e da União Soviética.

Atualmente, é possível dizer que o mundo bipolar da Guerra Fria continua a existir sobre 4 eixos essenciais.

O Eixo Americano: os Estados Unidos tentam manter o império americano e voltam a concentrar-se sobre eles mesmos. Ao fazê-lo, abandonam a sua postura de "soft power" baseadas nos valores universais bem como nas políticas mais orientadas para a simpatia para com as pessoas, como o "sonho americano", para adotarem uma postura de "hard power", baseada unicamente nos seus interesses.

Os Estados Unidos deixaram de adotar uma atitude positiva e produtiva baseada em valores, face à concorrência global. Washington segue agora uma política que visa sobretudo impedir o avanço de outros países, em termos da concorrência internacional.

Desta forma, os Estados Unidos que antes eram os "campeões da globalização", seguem agora uma política anti-globalização.

O Eixo da Rússia: depois da desintegração da União Soviética, a Rússia procurou renascer. Como nunca conseguiu ser um centro de atração à escala global, os seus esforços dirigiram-se sobretudo para o setor militar e para políticas de "hard power".

O Eixo da China: a China está a tornar-se numa potência económica muito influente, mas ainda não adquiriu o estatuto de potência política ou militar. Enquanto que outros atores, com os Estados Unidos à cabeça, se mostram abertamente enquanto força militar e política, a China prefere, pelo menos por agora, mostrar-se apenas enquanto força económica e tecnológica. Mesmo quando a situação o torna impossível, a China prefere evitar tomar posições políticas.

Por exemplo, enquanto os Estados Unidos apoiam fortemente a Índia contra a China, Pequim evita tomar abertamente uma posição contra a Índia.

 

A necessidade de um novo eixo baseado na justiça

Relativamente ao 4º eixo, trata-se do eixo da justiça mundial. Infelizmente, este eixo ainda não existe. É óbvio que os atores focados nos seus próprios interesses que mencionámos acima, precisam e estão à procura de uma justiça à escala mundial.

O eixo da justiça mundial é uma necessidade urgente, não apenas para que se possa seguir uma política internacional baseada em princípios, mas também para garantir o equilíbrio entre eixos de interesses.

Sabemos que a União Europeia não é um ator mundial. A continuidade da sua existência no século XXI não é sequer uma certeza. Ao mesmo tempo, certos esforços baseados nos valores feitos não pelos países europeus, mas sim pela União Europeia enquanto entidade coletiva, podem ser interpretados como uma procura por uma ordem baseada na justiça mundial.

As políticas regionais da Turquia, bem como os seus apelos e esforços no sentido da justiça mundial, podem ser resumidos na expressão "o mundo é maior que 5", que lidera a procura por um eixo de justiça mundial. Podemos dizer que há muitos países também à procura desta justiça ou que tentam de alguma forma levantar a sua voz sobre este assunto.

Os atores deste eixo, que deverá trazer a paz e a justiça à humanidade, devem seguir políticas mais ativas cooperando em conjunto, para fazerem sentir a sua presença.

No programa da próxima semana, vamos analisar a crise turco-americana por causa do sistema S-400. Mas para já, podemos dizer que este assunto, de facto, não diz respeito ao sistema S-400 nem à Turquia, ao contrário do que dizem os colunistas ocidentais e pro-ocidentais. Esta questão tem na verdade a ver com as prioridades mundiais em mudança por parte do Ocidente, e dos Estados Unidos em particular.

As prioridades atuais dos Estados Unidos são completamente diferentes das do período da Guerra Fria e não têm minimamente em conta os outros países, e por isso irão dar origem a muitas crises como esta sobre o sistema S-400.

Esta foi a análise sobre este assunto do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciência Política da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara



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