O Médio Oriente na América Latina

Apesar das relações entre o Médio Oriente e a América Latina já terem mais de 100 anos, há um grande vazio entre o mundo muçulmano e os latino-americanos, quando se olha para os estudos académicos feitos sobre o Médio Oriente. A análise de Mehmet Ozkan.

O Médio Oriente na América Latina

A Atualidade da América Latina –Capítulo 16

Apesar das relações entre o Médio Oriente e a América Latina já terem mais de 100 anos, há um grande e muito visível vazio entre o mundo muçulmano e os latino-americanos, quando se olha para os estudos académicos feitos sobre o Médio Oriente. Se eu fosse um académico latino-americano, teria uma imagem diferente se fizesse estudos sobre o Médio Oriente. O número de peritos sobre o Médio Oriente na América Latina é muito reduzido, apesar deste número ter começado recentemente a aumentar. Mas o mesmo não se pode dizer sobre a qualidade do seu trabalho.

Qual é a origem dos estudos sobre o Médio Oriente, feitos na América Latina? Onde está o Médio Oriente, aos olhos dos latino-americanos?

A maioria dos estudos sobre o Médio Oriente feitos na América Latina, começaram com os trabalhos que relatam a chegada dos turcos ao continente, e com a explicação das suas experiências no continente. O crescimento político e económico dos países para onde foram estas pessoas em particular, nutrem as relações entre as duas regiões. E este é na verdade o principal motivo para o aumento do número de estudos sobre o Médio Oriente, feitos no continente.

Os temas abordados nos estudos sobre o Médio Oriente, são maioritariamente sobre a integração dos turcos e sobre como historicamente chegaram ao continente da América Latina. O mais importante é a abordagem e a postura política, social e religiosa dos turcos. O caso dos turcos é abordado em mais de metade dos estudos sobre o Médio Oriente. A situação dos judeus no continente em particular, bem como a proteção do espaço religioso e cultural, são o tema da maior parte dos estudos realizados. Alguns académicos na América e na Europa em particular, realizaram um bom número de publicações em espanhol e em inglês sobre este tema.

Há pouco tempo, os elementos académicos oriundos de famílias de origem árabe em particular, publicaram vários livros e teses de doutoramento sobre a integração dos árabes no continente. Esta situação em especial, apesar de dar azo a um equilíbrio no número de estudos realizados sobre os judeus no continente, não elimina por completo a ausência de literatura muito séria sobre este assunto, do ponto de vista multidimensional acerca deste tema.

Recentemente, houve um aumento do interesse da América Latina em relação ao Egito, à Turquia, Irão e países do Golfo Pérsico. A maioria destes estudos são sobre os problemas políticos internos, questões económicas e política externa, e são feitos por jovens académicos. Apesar de terem a oportunidade de passar algum tempo nos países sobre os quais eles trabalham, infelizmente os seus trabalhos não vão além de pequenas e parciais observações pessoais, sobretudo condicionadas pelo que é dito na literatura em inglês.

Para muitos países da América Latina, o Médio Oriente é uma região que tem problemas complicados, desconhecidos, e que na verdade não terão consequências graves no imediato. Por isso, e na opinião de muitos especialistas, académicos e diplomatas que olham para o Médio Oriente a partir da América Latina, esta região é uma geografia interessante, tem uma diversidade cultural que merece ser apreciada, mas é uma região difícil de perceber em pormenor. Tendo em conta a falta de interesse da América Latina pela região do Médio Oriente, fica mais difícil perceber os problemas do Médio Oriente.

Apesar de tudo, duas tendências no continente contribuíram para o reforçar do vínculo entre a América Latina e o Médio Oriente. A esquerda tradicional da América Latina, está historicamente muito próxima da situação dos palestinianos. Esta aproximação, que se põe em marcha para apoiar a Palestina, considera que os palestinianos têm direito à independência e considera errada a ocupação israelita. E por vezes, a esquerda latino-americana coloca-se em frentes de oposição contra Israel. Do lado contrário, a elite política de direita da América Latina sempre se sentiu muito próxima de Israel. Esta situação deu origem a uma polarização sobre o Médio Oriente, em particular sobre a questão da Palestina.

A segunda tendência no continente, tem que ver com a política agressiva do Irão para a América Latina, que começou em 2 005. Através desta política, o Irão tanto criou a perceção de ser uma ameaça para o ocidente, como também tentou manter uma relação séria com o continente. A principal questão que uniu o Irão e a América Latina, foi a luta contra o imperialismo. Perante esta postura alargada, foram criados muitos espaços comuns, como no caso da Palestina e relativamente às intervenções do ocidente no continente.

A mais recente e única tendência em crescimento no continente, é a abertura parcial que a Turquia tenta fazer à América Latina. A parte mais visível deste processo, é a popularidade das telenovelas turcas e a existência de voos diretos da Turkish Airlines para muitos países do continente. Se este processo tiver sequência a nível económico e social, o continente ficará mais próximo da nossa região.

Existe apenas um pequeno número de peritos sobre o Médio Oriente na América Latina. Apesar de ter havido um aumento do interesse sobre a cultura espanhola e latina, esta situação não passa basicamente de uma tradução feita por muitos académicos, que olham para a nossa região a partir da distância da América Latina, e que não acrescentam nada para além de pequenos pedaços, de pequenas informações. Se considerarmos que a maior ameaça colocada pela globalização é a colonização mental e o controlo da informação, ganha mais importância o endoutrinamento  dos académicos e das pessoas que produzem os protótipos, que servem de base para as políticas e para as informações.

O Médio Oriente e a América Latina têm experiências semelhantes no seu passado, ao nível dos golpes de estado, da desigualdade de rendimentos, de movimentos de oposição social e da influência do capitalismo. Se queremos controlar um ponto de vista original, então chegou o tempo deste tipo de partilhas.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Professor Associado Mehmet Ozkan, académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da Agência de Cooperação e Coordenação da Turquia (TIKA)



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