Caixa de Pandora: a decisão de Trump sobre Jerusalém

A análise de Cemil Dogaç Ipek, doutorado em Relações Internacionais pela Universidade Ataturk.

872219
Caixa de Pandora: a decisão de Trump sobre Jerusalém

Apesar de todos os avisos feitos por todo o mundo, o presidente americano Donald Trump reconheceu Jerusalém como sendo a capital de Israel. No programa desta semana, vamos analisar as consequências desta decisão na região.

Apesar de todos os avisos feitos pela comunidade internacional a este respeito, o presidente americano Donald Trump reconheceu Jerusalém como sendo a capital de Israel. Os Estados Unidos foram assim o primeiro país a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, cinquenta anos depois da cidade ter sido ocupada por Israel. Esta decisão americana suscitou fortes reações não apenas no Médio Oriente e nos países muçulmanos, mas também na Europa. As pessoas saíram à rua nos quatro cantos do mundo e organizaram manifestações para protestar contra esta decisão.

Existem duas razões por detrás da decisão tomada por Donald Trump: em primeiro lugar, ele tinha prometido durante a sua campanha eleitoral que iria reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, caso fosse eleito presidente. Ele cumpriu por isso a sua promessa, que tinha feito ao lóbi judeu nos Estados Unidos. Com esta decisão, Trump espera obter o apoio dos judeus americanos durante o atual período, em que o presidente americano se debate com problemas de política interna dos Estados Unidos.

Esta decisão dos Estados Unidos viola abertamente o direito internacional. A resolução número 478 do Conselho de Segurança da ONU, adotada a 20 de agosto de 1 980, diz que “todas as iniciativas destinadas a mudar o estatuto de Jerusalém são juridicamente nulas, e apela-se a todos os estados que retirem as suas missões diplomáticas de Jerusalém que possam ter sido transferidas para a cidade”. Segundo a Carta de Fundação da ONU, as resoluções do Conselho de Segurança são obrigatórias para os estados membros. E é por este motivo que os Estados Unidos devem respeitar a resolução do Conselho de Segurança da ONU, decretada em 1 980.

A decisão de Trump pode dar origem a sérios incidentes na região. Esta crise poderá conduzir a novos conflitos na Palestina, em Israel e no Médio Oriente. O incómodo de Israel com o reforço do poder do Irão na Síria e com a influência do Hezbollah, são ambos do conhecimento público.

Relembramos que em 2 006, os desenvolvimentos na Palestina deram origem a uma guerra entre Israel e o Hezbollah. E olhemos agora para o que se passa no Médio Oriente. Este é o cenário que temos: um forte clima de polarização, uma administração americana a favor de Israel, um governo israelita a viver um impasse de política interna, uma divisão na Palestina e um crescimento da capacidade militar do Hezbollah. Toda esta situação faz-nos lembrar o que se passou no ano de 2 006.

Por outro lado, a decisão de Trump constitui também um entrave ao processo de paz israelo-palestiniano, que já tinha sido suspenso. A construção de novos colonatos ilegais israelitas em Jerusalém e na Cisjordânia, e a vontade de Israel em fazer da totalidade da cidade de Jerusalém a sua capital, bem como a atitude inconciliável de Israel sobre o estatuto dos refugiados, já tinham bloqueado o processo de paz. Esta decisão sobre Jerusalém, que é um dos problemas do estatuto final, poderá pôr um fim definitivo a um processo de paz que não avança.

Naturalmente, esta decisão vai fazer multiplicar as reações no Médio Oriente contra os Estados Unidos. Obviamente, esta decisão de Washington está também a ser criticada a nível interno nos Estados Unidos. Mas a decisão não pode ser atribuída apenas a Trump. Os povos do Médio Oriente vêm esta decisão como uma tomada de posição dos Estados Unidos enquanto país. Por isso, o anti-americanismo vai aumentar entre os povos da região. Uma outra consequência perigosa que poderá decorrer desta decisão, é o avanço do radicalismo no Médio Oriente. As pessoas expostas à injustiça demonstram uma forte reação, tendo em conta que não foi dada a resposta necessária contra esta decisão. Esta deceção cria uma atmosfera conveniente para o reforço do radicalismo.

A decisão de Trump tem também uma grande importância para a política mundial. Ela pode degradar as relações dos Estados Unidos com os países europeus. Desde logo, os principais países da União Europeia, nomeadamente a França e a Alemanha, opuseram-se à decisão americana. A União Europeia anunciou que a decisão de Trump é contrária ao direito internacional. Os países europeus apelaram à resolução da questão de acordo com as resoluções da ONU. Nós sabemos também que a Inglaterra também se afastou da administração de Trump, devido à sua política para a Síria, e posições em relação à Arábia Saudita e ao Iraque. Segundo o que podemos observar, a decisão de Trump sobre Jerusalém vai acentuar estas divergências e trazer graves tensões à aliança entre a Europa e o outro lado do Atlântico.

Até ao momento, as mais fortes contestações contra a decisão de Trump vieram dos países muçulmanos fora do mundo árabe. A República da Turquia dá a maior importância a esta questão e fez declarações firmes sobre este assunto. A Turquia tenta, na sequência das declarações que fez, constituir uma iniciativa diplomática. O ênfase que a Turquia colocou sobre as sensibilidades do mundo muçulmano, o direito internacional e a importância que Jerusalém tem para a humanidade, é essencial.

Se a República da Turquia conseguir obter o apoio do público mundial, poderá impedir o total desaparecimento da confiança na diplomacia. Por isso, se a administração americana encontrar uma séria resistência diplomática, política e social, os Estados Unidos serão forçados a fazer marcha atrás. O mundo muçulmano tem um papel chave na resolução desta crise de forma positiva. Se o mundo muçulmano conseguir desenvolver uma abordagem comum – pondo fim aos seus desacordos – a crise será resolvida mais depressa que o previsto, de forma positiva.



Notícias relacionadas