A Perspetiva da Turquia sobre o Médio Oriente

O Iémen está em guerra desde há 14 meses, uma situação que está a provocar consequências sociais muito graves.

A Perspetiva da Turquia sobre o Médio Oriente

O Iémen é o país mais pobre do Médio Oriente Árabe. O país está em guerra desde há 14 meses, uma situação que está a provocar consequências sociais muito graves. Durante o mês do Ramadão, os iemenitas passaram por um calvário indiscritível. O cessar fogo que começou em abril e que se prolongou durante 2 meses, constituiu uma pequena pausa que permitiu tratar das dores da população. Mas as discordâncias relativamente à linha de rumo apresentada pelo emissário especial da ONU para o Iémen na próxima etapa, acabariam por fazer ruir a trégua.

Na realidade, as propostas do emissário especial Ismail Vild Xeque Ahmed foram saudadas pelas partes em conflito. O plano previa a retirada dos Hutis e das tropas do ex-presidente Ali Abdullah Saleh das regiões ocupadas desde 2 014 - incluindo Sana – bem como a proibição do uso de armas pesadas pelos milicianos e a criação de um governo de unidade. Eles insistiram na nomeação de Abdel Rahman Mansur Adi, o presidente oficialmente reconhecido do governo iemenita, que ficaria à frente do governo de transição. Ficou também definido que o mandato presidencial de Mansur Adi por mais 2 anos, havia caducado. Mas por outro lado, o fracasso da administração em gerir o período de transição, agravou consideravelmente a situação atual.

Adicionalmente, as forças pro Adi fizeram saber que a retirada e o desarmamento dos Hutis e dos seus aliados, eram mais importantes do que a criação de um governo de unidade nacional. Em resposta a esta posição, os confrontos foram retomados ao fim de dois meses de trégua.

A guerra que já dura há 14 meses no Iémen, deu origem a uma séria crise humanitária. Mesmo antes da guerra, uma grande parte da população já vivia em condições muito difíceis. O cenário atual é ainda mais grave. A temperatura chega a atingir mais de 40 graus em certos locais, há cortes prolongados no fornecimento de eletricidade, falta água e a pobreza é generalizada. Por tudo isto, o Ramadão foi um período difícil para os iemenitas.

As doenças epidémicas que provocam a morte das crianças, fazem parte da vida quotidiana no Iémen.

Com o começo das operações da coligação árabe liderada pela Arábia Saudita, que interveio entre abril de 2 015 e maio de 2 016, perderam a vida 9 136 civis. Destes, 18% eram mulheres e 24% eram crianças. O número de feridos eleva-se a mais de 16 mil.

Muitas estradas, pontes, aeroportos, hospitais e escolas foram inutilizados durante os ataques. Mais de 325 mil casas deixaram de poder ser utilizadas. Estes bombardeamentos pesados e os confrontos, fizeram com que 2,8 milhões de pessoas tivessem que abandonar as suas casas e estejam agora deslocados. Várias ONGs internacionais, com destaque para a Amnistia Internacional, alegam que a coligação árabe usa bombas proibidas como parte do seu arsenal.

Perto de 15 milhões de pessoas estão preocupadas com a sua segurança alimentar, sendo que metade destas pessoas vive já em grave situação de escassez.

Segundo o coordenador humanitário da ONU para o Iémen, a situação no país constitui uma das crises mais graves em todo o mundo. A subnutrição e a fome são outras das razões que explicam a elevada mortalidade infantil. A escassez de produtos básicos, fez subir os preços para níveis incomportáveis. Por causa do insuficiente poder de compra, muitas famílias não têm dinheiro suficiente para comprar os produtos alimentares postos à venda. Cerca de 80% da população tem necessidade de ajuda humanitária em diferentes níveis.

A ONU apelou aos estados membros que disponibilizassem uma ajuda de 1,8 mil milhões de dólares para o Iémen em 2 016. Mas até agora apenas 17% desta verba foi reunida.

Mas qual é afinal, a razão para a guerra no Iémen?

O motivo mais indicado nos órgãos de informação, é a luta levada a cabo pelos milicianos hutis que ocuparam a capital Sana, em nome do Irão. Eles teriam assim sido motivados pelo Irão contra a Arábia Saudita. Os Hutis pertencem de facto a um movimento político-religioso chamado Ansarullah, que surgiu entre a população xiita zaidita que constitui um terço da população do Iémen. A sua ligação com o Irão não é segredo para ninguém. Contudo, é preciso não exagerar a influência do Irão sobre o Iémen. Desde logo, os Hutis não têm o apoio de todos os zaiditas. Adicionalmente, nem todos os zaiditas são pro Irão. Ali Abdullah Saleh, que atualmente coopera com os Hutis, é oriundo da população zaidita. Mas durante a sua presidência, ele manteve estreitas relações com os sauditas. Com a ajuda dos sauditas, ele combateu os zaiditas por 6 vezes no passado. Não é portanto a pertença à mesma confissão que fez com que Ali Abdullah Saleh se tenha aliado com os zaiditas.

Saleh não aceita ter sido posto fora da política e considera os Hutis como um instrumento que lhe poderá permitir retomar o seu lugar na cena política do Iémen. A tomada de Sana pelos Hutis – que são vítimas de uma pressão constante por parte do poder central – também não resultou de uma orientação dada pelo Irão. Os Hutis não têm força para tomarem conta de todo o Iémen. E eles também não confiam totalmente em Saleh, que antes já os combateu por 6 vezes. Mas os Hutis consideraram que a conjuntura atual lhes era conveniente para crescerem e se tornarem uma força essencial no país.

A questão que preocupa a Arábia Saudita não é o surgimento de um regime pro iraniano no Iémen. Os sauditas sabem muito bem que Saleh, que já não está sob o seu controlo, não é totalmente próximo do Irão. A razão pela qual a Arábia Saudita reagiu severamente contra o derrube da administração de Al Adi em Sana, foi pelo risco de perder o controlo sobre o Iémen, num contexto de cooperação entre os Hutis e Saleh.

Pela sua importância estratégica, o controlo permanente do Iémen por parte da Arábia Saudita é visto como um pilar indispensável da política externa saudita.

Mas a questão está a ser vista no quadro de uma luta de forças entre o Irão e a Arábia Saudita, o que permite aos sauditas obter apoio por parte da comunidade internacional. E por esse motivo, a Arábia Saudita preferiu mostrar a sua intervenção no Iémen, como uma iniciativa com o objetivo de travar a crescente influência do Irão na região. Mas na realidade, a questão tem mais que ver com a mobilização das dinâmicas locais.



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