Agenda da Turquia e do Mundo

Agenda da Turquia e do Mundo

A Cimeira do G20 em 2 015 foi presidida pela Turquia em Antália, nos dias 15 e 16 de novembro. Durante estes dois dias a Turquia tornou-se o centro do mundo, com o seu símbolo adornado em motivos tradicionais. A Cimeira do G20 deste ano ficará para a história pela sua extraordinária agenda e resultados.

Dois acontecimentos significativos aconteceram durante os preparativos da cimeira, mesmo antes de começarem as reuniões.

Um dos temas que marcaram a reunião do G20, foram os atentados terroristas do Daesh em Paris, que mataram 132 pessoas. O outro tema em destaque foram as convenções de Viena para resolver a crise síria. No total, foram 4 os temas na declaração final da Cimeira do G20, que os líderes abordaram nas conferências de imprensa.

1. Consenso absoluto relativamente a uma luta comum contra a organização terrorista Daesh. Todos os líderes, e em particular os presidentes Obama, Hollande e Erdogan, falaram em simultâneo na Assembleia de França e disseram que o Daesh é uma ameaça contra toda a humanidade, e como tal é preciso levar a cabo uma luta comum.

2. Consenso alargado sobre a implementação da Convenção de Viena para resolver o problema da Síria. Todos os líderes concordam que a guerra na Síria deve acabar e que a uma nova Síria deve ser criada durante um período de transição de 6 a 18 meses. O único ponto de ambiguidade é o papel de Bashar Al-Assad na nova Síra. Obama e Erdogan dizem que Assad não tem lugar na nova Síria. Esta posição não é aceite por alguns países como a Rússia. Mas nem Putin, nem as autoridades russas, fizeram qualquer comentário em relação ao papel futuro de Assad na Síria. Fica a perceção de que é difícil proteger a sua posição, mas essa questão só será esclarecida no final do período de transição de 6 a 18 meses.

3. Consenso relativamente à necessidade de todos os países contribuirem financeiramente e com ajuda humanitária para ser encontrada uma solução para o problema dos refugiados. Foi aceite, como princípio, que os refugiados não devem ser rejeitados, que as portas lhes devem ser abertas e que não devem ser tratados como terroristas.

4. Relativamente às questões económicas, houve também consenso em relação ao equilíbrio da economia global, às reformas do FMI e sobre as medidas para promover o emprego. Foi também decidido apoiar os países sub-desenvolvidos. E sobre este assunto, a principal questão tem que ver com o efeito negativo que a subida das taxas de juro nos Estados Unidos terão nas economias menos desenvolvidas. Outros dois temas relevantes, são os obstáculos à reforma do FMI e o aumento do investimento em infra-estruturas.

Já a seguir, damos conta da avaliação sobre estes temas feita pelo Prof. Dr. Ramazan Gozen, membro académico do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Marmara.

 

A Turquia deixou a sua marca nas reuniões e nas conclusões da Cimeira do G20. E não apenas pelo facto da cimeira ter tido lugar em Antália, um dos principais centros de turismo do mundo. A utilização de motivos e costumes tradicionais da Turquia, permitiram apresentar a hospitalidade turca. Mas o mais importante foi o facto das opiniões e sugestões da Turquia, terem tido eco nas reuniões e na declaração final.

É possível ver esta influência nos 4 pontos mencionados acima. Por exemplo, a ideia de que o “terrorismo não tem religião, nação, cor nem língua; terrorismo é terrorismo” – um conceito suportado pela Turquia – foi refletido na declaração final e nas opiniões dos líderes. Olhar para o Daesh como uma ameaça global e coletiva contra a humanidade, e o apoio dado à Turquia na luta contra o terrorismo, indicam também a importância turca nesta cimeira.

Outra contribuição da Turquia na Cimeira do G20, foram as suas opiniões acerca dos passos a tomar na economia global. Durante o seu período de presidência do G20, a Turquia deu sugestões tri-dimensionais para atividades com vista ao desenvolvimento económico global, traduzidas numa iniciativa económica diferente assente nos critérios da “Abrangência”, “Implementação” e “Investimentos”.

O critério da “Abragência”, supõe que a juventude e as mulheres dos países sub-desenvolvidos devem dar um maior contributo à economia global. Com este objetivo em vista, a Turquia levou a cabo atividades no âmbito do B20 – Homens de Negócios, C20 – Sociedade Civil, L20 – Trabalho e houve também uma iniciativa pioneira: o W20 dedicado às mulheres. Foram também dadas sugestões para eliminar as desigualdades económicas, de uma forma que cubra todos os setores. Estas sugestões fizeram parte da declaração final.

Relativamente à ideia turca da “Implementação”, foi sugerido que as decisões do G20 sejam postas em prática e que as promessas feitas sejam cumpridas. No capítulo do “Investimento”, a Turquia sugeriu que fossem feitos investimentos em infra-estruturas, emprego, crescimento sustentável e reformas institucionais para o desenvolvimento da economia global. Durante a cimeira, estimou-se que o investimento mundial em infra-estruturas até 2 030, atinja o valor de 4,4 biliões de dólares.

Existe no entanto um sério problema relativamente às reuniões do G20 e às suas conclusões, que é o facto destas decisões não serem de facto vinculativas para os países envolvidos. As estimativas apontam para que apenas 40-45% das decisões tomadas nas reuniões do G20, sejam de facto postas em prática. Como o G20 não tem poder para aplicar sanções ou controlar a implementação das decisões, muitas decisões acabam sem efeito ou são adiadas para outras cimeiras.

Esta situação torna-se ainda mais relevante em questões como a luta contra o terrorismo e o aquecimento global, o desarmamento nuclear e as diferenças de bem estar entre os países. O motivo por detrás desta situação, é o facto dos lucros de cada país não fazerem parte da agenda, e o facto do G20 ser insensível ou não reagir a questões como ocupações, anexações e violações de direito levadas a cabo por países membros.

Tudo isto faz com que o G20 seja na prática uma organização ineficaz, não sendo vinculativas as suas decisões, nem havendo um secretariado permanente ou um orçamento, tal como acontece por exemplo nas Nações Unidas.

Esta foi a avaliação sobre o tema feita pelo Prof. Dr. Ramazan Gozen, membro académico do Departamento de
Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Marmara.


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