O projeto Turkish Stream e os seus reflexos na política externa da Turquia

Nos últimos dias, aconteceram 3 situações que mostram a nova tendência na política externa turca. A análise do Dr. Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Karatekin.

O projeto Turkish Stream e os seus reflexos na política externa da Turquia

Terminou recentemente a construção do troço marítimo do projeto do gasoduto Turkish Stream. No programa desta semana, vamos analisar o ponto a que chegou o Turkish Stream e os seus reflexos na política externa da Turquia, de acordo com a análise do Dr. Cemil Dogaç Ipek.

Nos últimos dias, aconteceram 3 situações que mostram a nova tendência na política externa turca. A primeira situação foi a cerimónia que se realizou na semana passada em Istambul, para assinalar a conclusão da primeira parte do projeto de gás natural turco-russo chamado “Turkish Stream”. A segunda situação foi a negociação detalhada entre o ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Turquia, Mevlut Çavusoglu, que se encontrou em Washington com o seu homólogo americano. E a terceira, foi a vinda a Ancara dos responsáveis de alto nível da UE, que vieram até à capital turca para discutir as relações entre a Turquia e a UE com os responsáveis turcos.

Estes 3 acontecimentos, que ocorreram num intervalo de alguns dias, mostram o caráter “multidimensional” da política externa da Turquia. Podemos classificar a tendência atual da política externa turca como sendo um “progresso” nas relações com a Rússia, uma “normalização” com a UE e uma “renovação” com os Estados Unidos.

Terminou recentemente a construção do troço marítimo do projeto do gasoduto Turkish Stream. Na cerimónia organizada em Istambul para assinalar este marco do projeto, marcaram presença o presidente Recep Tayyip Erodgan e o presidente russo Vladimir Putin. O gasoduto Turkish Stream é um sucesso da nova política internacional da Turquia e uma mensagem de abertura para novos horizontes.

O troço marítimo do gasoduto Turkish Stream começa na cidade russa de Anapa e segue depois no fundo do Mar Negro até à localidade turca de Kiyikoy, na região da Trácia no noroeste da Turquia. Com o Turkish Stream, a Turquia poderá ter acesso a gás natural mais barato, pois o projeto não usa a Turquia apenas como ponto de passagem para o gás natural, mas também como destino final. Atualmente, a Turquia compra 14 mil milhões de metros cúbicos de gás natural que chegam ao país através de gasodutos com origem na Ucrânia, Moldávia, Roménia e Bulgária. Mas quando o projeto Turkish Stream começar a funcionar, a Turquia poderá comprar gás natural diretamente à Rússia através do Mar Negro. Esta situação garantirá à Turquia o acesso a gás natural mais barato, pois deixa de ser preciso pagar o custo da passagem do gás por outros países.

No futuro próximo, a Turquia deixará de ser afetada pelas possíveis crises entre a Rússia e a Ucrânia, ou entre a Rússia e a Roménia ou a Bulgária. A capacidade anual de transporte do Turkish Stream será de aproximadamente 63 mil milhões de metros cúbicos de gás natural. A Turquia deverá ficar com 14 mil milhões de metros cúbicos de gás natural através deste projeto, e enviará depois para a Europa os restantes 49 mil milhões de metros cúbicos de gás natural.

Atualmente, as políticas de duplo critério do Ocidente empurram a Turquia e a Rússia para uma colaboração conjunta. Por isso, a conjuntura regional e internacional representa o ambiente político adequado para o projeto Turkish Stream.

O projeto Turkish Stream garantirá a segurança energética da Turquia em termos de gás natural, mas não faz muito em termos de dar novas opções de oferta de energia, tendo em conta que a dependência energética da Turquia face ao exterior é de 72%. A percentagem atual de gás natural russo consumido na Turquia, incluindo o consumo do setor privado, é de 42%. Se excluírmos o setor privado, a percentagem é de 29%.

O projeto Turkish Stream também ajudará à concretização do objetivo da Turquia de se tornar num centro de energia e num país de trânsito, que transforme a Turquia num ponto de referência da segurança energética a nível global. Com o projeto Turkish Stream, a Turquia não vai apenas comprar mais gás natural à Rússia, irá apenas mudar o trajeto que percorre o gás até chegar ao nosso país. A passagem do gás natural por território turco no seu caminho até à Europa, através do Turkish Stream, assegurará apoio à estratégia da Turquia para se tornar num centro de energia. A ligação do gás natural russo à Europa através da Turquia com o projeto Turkish Stream, tornará também mais estáveis as relações entre a Turquia e a Rússia. Além disso, podemos também esperar o começo de um novo período nas relações entre a Turquia e a UE ao nível da energia.

O projeto Turkish Stream é o resultado da confiança mútua entre a Rússia e a Turquia. O Turkish Stream é importante por criar uma nova rota para a transferência de energia e por ter uma influência positiva nas relações entre os dois países. Adicionalmente, e com a construção da central nuclear de Akkuyu – a primeira central nuclear da Turquia – por parte de uma empresa russa, as relações bilaterais entre os dois países ganham uma nova dimensão.

Por último, a Turquia faz também parte de um dos mais importantes projetos de energia à escala global, em paralelo com o Turkish Stream, que tornarão o país num centro de energia. Tanto o Turkish Stream como os gasodutos Trans Adriático (TAP) e o TANAP (o projeto do gasoduto Trans Anatoliano), desempenham um papel mediador na questão da distribuição da energia. A Turquia passará por isso a ser um ponto estratégico no mapa da energia global.

Sabemos da importância da energia na política global e nos mercados económicos internacionais. Os passos dados pela Turquia para ser um centro de energia, podem desempenhar um papel chave no processo de transformação da Turquia num ator regional e global.

Não podemos avaliar estes projetos apenas na perspetiva dos ganhos económicos. A tentativa da Turquia em tornar-se um centro energético, tem que ver com o objetivo do país de se tornar um ator global. Esta situação contribuirá também para o fortalecimento político da Turquia. Mas naturalmente, estes passos não são suficientes. A Turquia é o país com mais vantagens para se tornar num centro de comércio de energia, devido à sua capacidade e posição geográfica. Mas para que o objetivo da Turquia de se tornar num centro de energia possa ser cumprido, é primeiro preciso que o país alargue a sua rede de recursos e traga para o seu território mais energia do que aquela que consome a nível interno.

Atualmente, a Turquia importa o gás natural russo através dos gasodutos Mavi Akim e Trans Balcãs. Com o Turkish Stream, a Turquia passa a usar uma nova rota mas mantém os mesmos recursos. No futuro, a Turquia deverá adotar políticas mais ativas em termos da definição das rotas de energia. Neste sentido, o país não deve servir apenas de ponte. Por conseguinte, o Turkish Stream será um dos passos importantes no caminho para o fortalecimento da estratégia de energia nacional da Turquia.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Dr. Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Karatekin



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