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As eleições no Norte do Iraque e os seus reflexos na política externa da Turquia

Estas eleições tiveram duas diferenças importantes em relação às que se realizaram em 2009 e 2013, na questão do conteúdo e do ambiente em que se realizaram. A análise do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Dep. Relações Internacionais da Univ. Karatekin.

As eleições no Norte do Iraque e os seus reflexos na política externa da Turquia

Realizaram-se há pouco tempo as eleições parlamentares regionais na Administração Regional Curda do Iraque. No programa desta semana, vamos analisar os seus reflexos na política externa da Turquia.

No dia 30 de setembro de 2 018, realizaram-se as eleições parlamentares na Administração Regional Curda do Iraque (IKBY), em que os iraquianos que vivem em Erbil, Suleymaniye e Duhok afluíram às urnas para eleger os 111 deputados do parlamento regional. Esta eleição parlamentar teve um caráter mais pálido que em anos anteriores e deu origem a muitas discussões.

Estas eleições tiveram duas diferenças importantes em relação às que se realizaram em 2 009 e 2 013, na questão do conteúdo e do ambiente em que se realizaram. A diferença mais importante face às eleições anteriores, foi o facto de não ter acontecido em simultâneo com as eleições para a presidência da região. Depois das eleições em 2 017, o vazio nascido da renúncia de Masut Barzani depois da aprovação da “Lei Básica” da Administração Regional Curda do Iraque e da reeleição do presidente, fez com que essa eleição não pudesse acontecer em simultâneo com a eleição parlamentar. Por este motivo, no dia 30 de setembro apenas se puderam realizar as eleições parlamentares regionais.

A segunda diferença mais importante destas eleições face às anteriores, é o facto de se ter realizado num ambiente com condições económicas e sociais diferentes do passado. Nos últimos 6 meses, e em Suleymaniye e no leste dessa região em particular, foram duramente reprimidas as manifestações com base em motivos económicos. Por este motivo, havia curiosidade em saber qual seria a reação do povo ao agravar das condições económicas.

O primeiro ponto que deve ser sublinhado nestas eleições, foi a sua baixa taxa de participação em comparação com eleições parlamentares anteriores. Nas eleições de 2 013 a taxa de participação foi de 73%, bem acima dos 57,98% deste ano. Na realidade e de acordo com algumas avaliações feitas no dia das eleições, foi dito que na verdade a taxa de participação foi muito inferior ao anunciado pelos números oficiais. Registou-se uma diferença de 10% entre a taxa de participação declarada numa primeira fase, face aos números oficiais após o encerramento das urnas. Esta situação, fez aumentar ainda mais as preocupações acerca da abstenção eleitoral.

Os partidos mais importantes nestas eleições da Administração Regional Curda do Iraque (IKBY, na sua sigla em turco), o KYB (União Patriótica do Curdistão) e Nova geração, alegaram que houve irregularidades que tiveram influência no resultado das eleições, através do uso de identidades falsas em Erbil e Suleymaniye. As fotos e as imagens de vídeo fornecidas por fontes abertas, são provas muito sérias de que pessoas armadas atacaram os locais de votação após o fecho das urnas, tendo imobilizado os responsáveis pelas urnas através da violência. Por este motivo, parece ser bastante difícil analisar o apoio da população aos partidos políticos da Administração Regional Curda do Iraque, tendo em conta o número de votos e as percentagens de cada partido nestas eleições.

Por outro lado, as escolhas da população permitem-nos tecer algumas opiniões sobre o apoio aos partidos da oposição.

O KDP (Partido Democrático do Curdistão) do Iraque, é um dos países mais importantes da Administração Regional Curda do Iraque e tal como se esperava venceu as eleições. No momento em que este programa foi escrito, ainda não tinham sido ainda declarados os resultados oficiais, mas tudo indica que o KDP obteve 45 assentos parlamentares. Para além deste resultado, o KDP deverá controlar ainda 9 dos 11 deputados que entraram no parlamento devido às quotas para minorias.

Depois da declaração final sobre os resultados, o KDP deverá obter o voto de confiaça na assembleia necessitando de apenas 2 ou 3 votos, para alcançar a maioria necessária de 56 votos. Este resultado, indica que o grande vencedor destas eleições foi claramente o KDP.

O KYB, apesar de todas as recusas e de todos os problemas que ocorreram no dia das eleições, voltou à condição de segundo maior partido. Durante o próximo período, o KYB fará todos os possíveis para ser uma peça do governo. Uma parte da sua força na assembleia deriva do número de peshmergas que o apoiam, e que impede que o KYB seja um partido ignorado.

A maior diferença do KYB face a outros partidos, é a sua força militar e o organização comum do partido. Isto permite ao KYB não ter que se submeter a pressões oriundas do KDP ou de outros partidos.

Por outro lado, com a eleição de Behram Salih como presidente, é possível que termine o período turbulento que se arrasta desde há muito tempo na KYB.

O movimento Goran, que alcançou a maior subida nas eleições anteriores, continua em queda desde essa altura. Depois da morte de Nevshirvan Mustafa, o líder do Movimento Goran, aumentaram as lutas pela liderança e a discussão entre a antiga geração e os novos candidatos a líder. O número de assentos parlamentares e a percentagem de votos baixaram relativamente a eleições anteriores, o que poderá dar origem à perde do lugar de deputado do atual presidente do partido, Omer Seyit Ali.

Por outro lado, o Movimento da Nova Geração que participou pela primeira vez nas eleições para o parlamento da Administração Regional Curda do Iraque, e apesar de ter registado uma descida de votos em relação às eleições de maio de 2 018, defendeu a sua continuidade na arena política da região. No caso de se confirmar a queda do Movimento Goran, poderá ser o Movimento Nova Geração o novo elemento agregador da oposição, para todos aqueles que não gostam do KDP nem do KYB.

A primeira coisa que nos mostram os resultados eleitorais na região é o seguinte: caso continuem as tendências socio-económicas atuais na Administração Regional Curda do Iraque, existe uma grande probabilidade de se gerar um ambiente de caos, face ao qual as instituições atuais não serão capazes de encontrar uma solução. À medida que diminui o acreditar da população nas instituições políticas da região, vai-se reduzindo também a taxa de participação nos atos eleitorais. Por este motivo, no norte do Iraque (e tal como aconteceu também na cidade iraquiana de Bassorá), observamos desenvolvimentos como manifestações de protesto, que em breve poderão sair fora do controlo dos partidos políticos e poderão dar azo a acontecimentos sangrentos.

Quando olhamos para esta questão do ponto de vista da política externa turca em particular, e quando se tem em conta as transformações locais, regionais e globais, é possível prever que irão ser novamente reavivadas as relações entre Ancara e Erbil, no contexto atual. Não é possível esquecer tudo e regressar à realidade de acordo com a natureza das relações internacionais, mas é possível que as relações entre as duas partes e o futuro comum sejam reconstruídas, com base nos interesses e condições comuns.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Karatekin



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