Os sinais de melhoramento nas relações entre a Turquia e a Alemanha

As relações com a Alemanha atingiram os piores níveis da sua história nos últimos anos, na perspetiva da Turquia. A análise do Dr. Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Ataturk.

Os sinais de melhoramento nas relações entre a Turquia e a Alemanha

Apesar das relações entre a Turquia e a Alemanha se terem tornado cada vez mais tensas nos últimos anos, ultimamente surgiram sinais de melhoria nas relações. No programa desta semana vamos analisar as relações entre a Turquia e a Alemanha, em função dos últimos desenvolvimentos.

As relações com a Alemanha atingiram os piores níveis da sua história nos últimos anos, na perspetiva da Turquia. O nível máximo de tensão entre os dois países foi atingido nos últimos anos, pois a tensão passou a ter um caráter sistemático.

As relações começaram a tornar-se tensas depois de uma notícia da revista alemã Der Spiegel, segundo a qual o Serviço Federal de Recolha de Informações da Alemanha (BND) estaria a fazer escutas telefónicas aos responsáveis máximos da Turquia, desde o ano de 2 009. Este foi o primeiro sinal da eclosão da crise. Depois surgiu a proteção dada pelos responsáveis alemães ao humorista Jan Bohmermann, que escreveu um poema cheio de insultos ao presidente turco Recep Tayyip Erodgan, no ano de 2 016. Uns meses após esta situação, o parlamento federal alemão aprovou o projeto de lei que reconhece o alegado genocídio arménio. As relações diplomáticas foram bastante afetadas por estes eventos.

A recusa de Ancara ao pedido de visita do ministro da Defesa da Alemanha à base turca de Incirlik, foi um desenvolvimento que teve uma ampla repercussão na imprensa internacional.

Apesar do governo alemão ter dito que a decisão do parlamento federal sobre a questão do alegado genocídio arménio não era vinculativa, a crise continuou a avançar com rapidez.

A Alemanha deu todos os passos que podia contra Ancara, na luta da Turquia contra as organizações terroristas PKK e FETO. Berlim hospedou os membros destas organizações e recusou os pedidos de extradição e julgamento. Outra coisa que saltou à vista, foi o facto do governo alemão não sentir necessidade de ocultar as suas atividades contra a Turquia. Berlim sempre teve uma atitude negativa relativamente à luta da Turquia contra estas organizações terroristas.

Durante este período, Berlim sempre se mostrou muito relutante na condenação à intentona golpista de 15 de julho de 2 016, que teve lugar na Turquia. A Alemanha não extraditou as pessoas que participaram nesta tentativa de golpe, e não deu justificações para os refugiar no seu país. Esta situação mostrou a atitude do governo de Berlim contra o Partido da Justiça e Desenvolvimento (Partido AK), aconteça o que acontecer, e transformou-se numa luta com más intenções.

De acordo com os números oficiais, há perto de 900 ex-elementos do ministério turco dos Negócios Estrangeiros e das forças armadas da Turquia na Alemanha, cujos pedidos de extradição para a Turquia não foram atendidos pela Alemanha, na sequência da intentona golpista. Pelo contrário, foi dada a estas pessoas residência na Alemanha.

As autoridades de justiça alemãs, em vez de extraditarem os terroristas – que representam um problema de segurança crítica para a Turquia – optaram por alegar que a Turquia tenta sufocar a oposição com pressão, e dizem que a Interpol está a ser usada com más intenções.

Em julho de 2 016, a negação de autorização para que o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, participasse num encontro com os turcos na Alemanha por video-conferência, mostrou uma vez mais os problemas nas relações bilaterais.

Os responsáveis alemães alegam que a luta da Turquia contra o terrorismo limita os direitos humanos e não dá a importância necessária à democracia. E em função destas alegações, o estado alemão não toma as medidas necessárias contra os atos racistas e separatistas contra os turcos que vivem na Alemanha.

Em particular, o julgamento da NSU num caso de racismo cuja sentença foi recentemente ditada e que envolveu o assassinato de cidadãos turcos, foi um caso de bizarrias jurídicas do princípio ao fim. Num processo em que dezenas de turcos foram vítimas de assassinatos e em que é quase certo que houve a participação de grupos nazis, apenas foram condenados alguns funcionários de baixo nível. E nunca se divulgou a existência de uma estrutura organizada. Esta situação dá força às alegações de que os réus foram protegidos pelo governo de Berlim.

O desenvolvimento que fez mudar toda esta política de tensão, foram os problemas que ambos os países viveram com os Estados Unidos. A abordagem incómoda do presidente Trump dos Estados Unidos contra a economia e segurança da Alemanha e da Turquia, esteve na base da aproximação entre Ancara e Berlim. Os altos e baixos económicos causados pela volatildade cambial, sobretudo na Turquia, e o risco dos problemas bancários na Turquia se poderem estender à Europa, fez com que a Alemanha tomasse uma posição a favor da Turquia. Tudo o que se viveu nos últimos tempos, faz com que estes dois países membros da NATO se encontrem numa plataforma mais próxima, num período em que se questionam os compromissos da antiga aliança por parte dos Estados Unidos.

O último exemplo disto mesmo pôde ser constatado na visita realizada pelo ministro alemão das Finanças, Olaf Scholyz, que juntamente com o seu homólogo francês visitou a Turquia. Durante as negociações, foi confirmada a atitude da Alemanha no sentido da proteção da estabilidade económica da Turquia e do desenvolvimento das relações comerciais entre os dois países, bem como a intenção de mitigar os efeitos da desvalorização cambial. Algo parecido aconteceu também em Istambul, durante uma reunião na semana passada sobre o futuro de Idlib, em que participaram representantes da Alemanha, França e Rússia, a convite do porta voz da presidência da Turquia. A possibilidade de uma operação militar contra Idlib e a onda migratória que poderia resultar dessa decisão, é um dos principais temas de preocupação da política externa da Alemanha.

A Turquia tem relações multidimensionais, políticas, económicas, militares e humanitárias com um grande passado com a Alemanha, um dos seus aliados mais antigos na Europa. As relações entre a Turquia e a Alemanha são mais intensas do que com muitos países nas nossas fronteiras. Para além das visitas mútuas ao mais alto nível, existem também contactos telefónicos periódicos e tradicionais.

As relações tão próximas e multidimensionais, trazem consigo oportunidades e riscos. Para eliminar os problemas e para que seja alcançada a normalização das relações, é preciso dar importância aos canais abertos de comunicação e diálogo. Nos últimos dias, a perceção de risco comum fez soprar um vento positivo nas relações entre os dois países, e permitiu que fossem passadas mensagens de reavivamento do processo de adesão à União Europeia. O aumento dos riscos políticos implica que tenha que ser seguida uma política mais cuidadosa por parte de Berlim em relação à Turquia.

Esta foi a opinião do Dr. Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Ataturk



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