A luta de poderes no Iraque

No momento atual, a maior probabilidade aponta para que o próximo governo de coligação seja liderado por al-Sadr. A análise de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais (SETA).

A luta de poderes no Iraque

Depois da realização das eleições no Iraque, ainda não foi possível formar um governo, apesar de já terem passado 4 meses. Continuam os esforços dos partidos iraquianos para formar uma coligação, que sustente o governo do Iraque. O movimento Sadr, liderado por Muqtada al-Sadr e que obteve a maioria dos votos, deu passos importantes para a formação de um governo.

Quatro partidos mostraram-se disponíveis para formar uma aliança que permita formar governo: o Sairun, liderado por Muqtada al-Sadr – o lider do movimento Sadr – a Aliança Al Nasr (Aliança da Vitória), liderada pelo primeiro ministro iraquiano Haider al-Abadi, a corrente Al Hikma (A Sabedoria), liderada por Amar al Hakim e ainda a coligação de Al Watanya, sob a presidência de Iyad Allawi, anunciaram que estão dispostos a criar um quarteto governamental. Adicionalmente, alguns partidos sunitas e o movimento curdo Nova Geração, também poderão fazer parte da coligação.

Mas o parlamento iraquiano, depois de realizar a segunda sessão para a eleição de um novo governo do país, adiou a próxima sessão para o próximo dia 15 de setembro, por não ter sido possível convencer o número suficiente de deputados a eleger um novo governo.

O ex-presidente do Iraque e lider da Coligação do Estado de Direito, Nuri al Maliki, bem como o lider do bloco Al Fatah, Hadi al Amiri, anunciaram a sua decisão de criar uma coligação. De acordo com a constituição iraquiana, a maior coligação será convidada a formar um governo. No momento atual, a maior probabilidade aponta para que o próximo governo de coligação seja liderado por al-Sadr.

Segundo a constituição iraquiana, o presidente do parlamento deverá ser eleito pelos sunitas na primeira sessão do parlamento, para que possa ser formado um novo governo. O governador da província de Ambar, Mohamed Al Halbusi, o vice-presidente iraquiano Osama al-Nujaifi, e ainda os políticos Mohammed Tamim, Rashid Taha al-Azawi, Ahmed al Jubouri e Az Zubayr, são as principais figuras com hipóteses de serem eleitas para o cargo.

O Partido Democrata do Curdistão e a Aliança dos Patriotas Curdos, os dois maiores partidos curdos, optaram por se manterem afastados de todo este processo e boicotaram a sessão parlamentar, abandonando o hemiciclo.

O processo de criação de um novo governo no Iraque é afetado por vários equilíbrios internos e externos. Observamos que no Iraque existem discórdias políticas, sectárias e étnicas em várias partes do país. Além disso, a competição entre os Estados Unidos e o Irão tem uma grande influência na política iraquiana. A coligação Al Fatah, fundada pelo ex-primeiro ministro iraquiano Nuri al-Maliki e por Al-Hashad Al-Shabi – ambos apoiados pelo Irão – tem uma grande importância na política do Iraque. Além disso, a estrutura militar da Al-Hashad Al-Shabi torna militarmente mais forte a coligação apoiada pelo Irão, para além do seu poder político. O Irão tenta garantir a sua área de influência no Iraque, através de uma estrutura semelhante ao Hezbollah no Líbano.

Por outro lado, os Estados Unidos tentam limitar a ação do Irão no Iraque. A intensa diplomacia do enviado especial dos Estados Unidos para a coligação internacional contra o DAESH, Brett McGurck, é de suma importância para os esforços de criação de um governo. Surgiram alegações de que foi Brett McGurck quem travou os partidos curdos apoiados pelo Irão - o Partido Democrata do Curdistão e a Aliança dos Patriotas Curdos - que atuaram de forma conjunta com a coligação apoiada pelo Irão, graças às suas negociações com estes dois partidos.

Os Estados Unidos apoiam a coligação de quarteto composta pelo líder do Movimento Sadr, Muqtada al-Sadr, Aliança Al Nasr (Aliança da Vitória), liderada pelo primeiro ministro iraquiano Haider al-Abadi, a corrente Al Hikma (A Sabedoria), liderada por Amar al Hakim e pela coligação de Al Watanya, sob a presidência de Iyad Allawi. Mas as declarações negativas de Muqtada al-Sadr contra os Estados Unidos, mostram que a relação entre as duas partes é problemática.

Outro fator que torna importantes os esforços para formar um governo no Iraque, é a luta da Turquia contra o terrorismo. As Forças Armadas da Turquia (TSK) continuam a levar a cabo a operação Inherent Resolve (Determinação Inerente) no norte do Iraque, contra a estrutura do PKK no país, ao controlar os quartéis e os movimentos do PKK. Adicionalmente, estão também a ser feitos disparos certeiros contra os esconderijos do PKK na região iraquiana de Sinjar. O suposto comandante regional da organização terrorista PKK foi neutralizado por veículos turcos de combate aéreo não tripulados (SIHA), na sequência de uma operação conjunta da Agência Turca de Recolha de Informações (MIT) e das Forças Armadas da Turquia.

As tentativas para formar um governo no Iraque têm o potencial de afetar também a luta contra o terrorismo da Turquia. Depois de ser formado um governo no Iraque, as operações da Turquia contra o PKK poderão ser alargadas, de acordo com as negociações diplomáticas entre os dois países. É de esperar que a Turquia faça pressão sobre o governo central do Iraque, para que este se mobilize contra as fontes materiais do PKK e contra a sua estrutura em Sinjar.

Esta foi a opinião sobre este tema de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais (SETA)



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