A análise de Idlib em vários aspetos

Quando olhamos para a situação geral do mundo, não se espera uma grande luta ideológica como aconteceu entre 1 945 e 1 989. A análise do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Karatekin.

A análise de Idlib em vários aspetos

Segundo muitos analistas, faltam apenas alguns dias para que comecem os combates em Idlib. Olhando para a concentração de tropas na região, pensam que a operação começará muito em breve. No programa desta semana, vamos analisar a questão de Idlib na perspetiva da luta das forças globais.

Depois de reinar durante quase mil anos, no período final do império romano (e na expressão humorística de Voltaire), o império romano já não era nem sagrado, nem romano, nem um império. Depois de quase dois séculos e meio, o problema atual da ordem mundial liberal nos últimos tempos (e na mesma linha da expressão de Voltaire), é o facto de ser uma ordem que já não é liberal, nem global e onde nem sequer há ordem. É cada vez mais difícil falar do mundo em união e unidade. As tentativas de criar ambientes globais fracassam continuamente. O protecionismo está em alta e a última ronda de negociações para o comércio mundial não teve sucesso. Há também muito poucas regras no espaço cibernético. Estamos a ser testemunhas do fim da ordem e começo de novas desordens regionais. O melhor exemplo disto mesmo é o que se passa no Médio Oriente e na Síria.

Atualmente, o mundo é diferente do mundo da polarização ideológica do período entre 1 939 e 1 991. Mas parece-se mais aos anos que precederam a I Guerra Mundial. Estamos a testemunhar as guerras de força nacionais, numa era em que emergem e entram em decadência forças globais e regionais. Os Estados Unidos, a força soberana imperial, tomam iniciativas para manter o seu estatuto. Os atores em crescimento como a China e a Turquia, estão incomodados com a força desproporcionada e pelo repartir da riqueza dos Estados Unidos.

As estruturas multinacionais como a Federação Russa e a União Europeia procuram voltar ao seu antigo esplendor. O Ocidente tem medo do regresso da União Soviética, e a Rússia tem medo da onda de mudanças de regime com o apoio do Ocidente, e existe um medo comum em todo o mundo do islão radical.

Quando olhamos para a situação geral do mundo, não se espera uma grande luta ideológica como aconteceu entre 1 945 e 1 989. Não existe agora uma Cortina de Ferro. Para além de uma grande força global, há forças emergentes e outras em decadência, como aqueles que querem a redução da soberania dos Estados Unidos mas não têm força para os substituir. Esta situação dá origem a alguns desacordos entre os peritos nesta matéria.

Alguns peritos tentam explicar a situação atual num contexto de nostalgia da Guerra Fria. Mas este não é um paralelismo correto. A situação atual parece-se mais com a registada na segunda metade do século XIX. Este é um período de competição entre grandes forças em decadência e uma era em que as relações entre estados são baseadas na defesa dos seus interesses nacionais e não em função de ideologias.

Na atual estrutura global há uma potência dominante, mas que cada vez mais se depara com desafios de potências que tentam defender os seus interesses nacionais. O mundo caminha no senda errada, tentando perceber o século XXI olhando para ele como se ainda estivessemos no século XX. Por este motivo, podemos dizer muito facilmente: não estamos perto de uma segunda Guerra Fria.

Atualmente, a Síria poderá despoletar as linhas de falha regionais e até globais. A qualquer momento, pode surgir um foco de conflito fora de controlo, tanto no espaço aéreo como no terreno na Síria. Segundo muitos analistas, faltam apenas dias para o começo do combate em Idlib. Olhando para a concentração de tropas na região, pensam que a operação começará muito em breve. O número de soldados e de milícias acantonadas em três pontos importantes nos arredores de Idlib, bem como as forças dos aliados regime, estão ao nível da força usada na operação de Alepo.

Idlib, na questão dos combates internos na Síria, será um ponto crucial na questão de garantir a ordem. Por isso, a determinação do momento do começo da operação depende de um acordo entre a Rússia e a Turquia sobre Idlib, e sobre o futuro da Síria. Isto porque as relações entre estes dois países, apesar da sua natureza estratégica e próxima na questão da Síria em particular, transformou-se num meio de equilíbrio. Mas ainda não foram totalmente dissipadas as discrepâncias na questão de Idlib.

A Turquia olha para o combate que se aproxima em Idlib sob duas perspetivas. A primeira, são os riscos de segurança de curto prazo e as suas consequências para a Turquia. A segunda, é a formação de uma ordem que não represente uma ameaça contra a Turquia no longo prazo. A primeira ameaça que pode surgir no curto prazo, em função de uma possível operação contra Idlib, é a acumulação de centenas de milhares de sírios na fronteira com a Turquia, para fugirem dos combates.

O risco de longo prazo, é a transformação da nova ordem na Síria numa situação que possa representar uma ameaça contra a segurança nacional da Turquia. E não interessa se essas ameaças sejam o resultado da guerra civil na Síria. O que interessa é que não se crie uma ordem que represente uma ameaça contra a Turquia, tanto no campo militar, como nas áreas política e diplomática. O surgimento de uma zona controlada pelo PKK/YPG no nordeste da Síria, representa uma ameaça vital para a Turquia. E por isso, a equação depois de Idlib também deve ser considerada neste contexto.

Por conseguinte, todos os olhares estão orientados para Idlib. Os Estados Unidos começaram o processo de criação de uma zona segura para o PYD/PKK. Apesar de continuarem as ajudas no contexto da luta contra o DAESH, as atividades militares e económicas executadas tanto pelos Estados Unidos como pela Arábia Saudita e seus aliados, estão orientadas para Idlib. E neste contexto, começaram as ações para a criação de uma “zona de exclusão aérea” no nordeste da Síria, para que depois, num sentido geral, seja criada uma zona sob proteção dos Estados Unidos. Por isso, e enquanto se fala da operação de Idlib, não nos podemos esquecer do nordeste da Síria.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Karatekin



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