O dilema de Idlib

A Turquia esforça-se por salvar a região, onde vivem 3 milhões de civis, de uma grave crise humanitária. A análise de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais (SETA).

O dilema de Idlib

A região de Idlib passou a ser o último bastião dos opositores sírios, desde que começou a crise no país no ano de 2 011. Esta região abarca as zonas de Alepo Ocidental e Sul de Alepo, Hama (mais a norte) e o norte da província de Latakya. Esta é a última região nas mãos dos opositores que lutam contra o regime de Assad. O facto dos opositores terem perdido o controlo de regiões como Alepo, Guta Oriental, Daraa, Quneitra e a região a norte de Homs, fez com que a presença da oposição em Idlib se torna-se muito mais importante.

De acordo com o processo de Astana, Idlib – cuja região tem agora 3 milhões de habitantes – faz parte das zonas de redução da tensão do conflito. Existem na região 12 ponros de observação, que foram criados no âmbito do Acordo de Astana, assinado entre a Turquia, a Rússia e o Irão, e que é de suma importância para o destino da região.

Os opositores na região de Idlib, de vez em quando entram em conflito. Para além das suas diferenças ideológicas, estão também envolvidos numa luta de poder. De acordo com os últimos acontecimentos na região, é possível falar em duas formações principais da oposição em Idlib: a Hay´at Tahrir al Sham (HTS) e a Frente Nacional de Libertação.

A HTS é considerada como uma organização terrorista por parte dos Estados Unidos, enquanto que a Frente Nacional de Libertação é apoiada pela Turquia. A HTS não foi incluída no processo de Astana, mas a Frente Nacional de Libertação faz parte desse processo.

O regime e os seus aliados usam a presença de grupos radicais na região como pretexto para avançarem com uma operação militar na zona. Por seu lado, a Turquia faz esforços através de manobras políticas, para que esses grupos sejam eliminados. Apesar de Idlib ter sido definida como uma zona de redução da tensão do conflito - no âmbito do processo de Astana - o regime e os seus aliados insistem em dizer que Idlib é agora um alvo de conquista.

Uma possível operação em Idlib representa grandes riscos para a Turquia. O enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, avisou que se acontecer em Idlib o mesmo que se passou em Guta Oriental, a situação humanitária será 6 vezes pior daquela que se verificou em Guta Oriental. Um ataque a Idlib e a supressão dos elementos da oposição naquela região, poderá criar uma realidade que ameaça diretamente as zonas de Afrin, Azaz, Al Bab e Jarablus, que estão sob o controlo da Turquia.

A atual capacidade militar do regime, mostra que uma possível operação de larga escala contra Idlib só poderia ser executada com a aprovação e a participação da Rússia.

As atuais posições da Turquia e da Rússia em território sírio, bem como o nível das relações entre os dois países, enfraquecem a possibilidade de Moscovo dar um passo que ameace diretamente Ancara. Isto apesar dos bombardeamentos aéreos contra a região estarem a prejudicar o acordo alcançado no âmbito do processo de Astana, e desses bombardeamentos estarem a contribuir para a instabilidade na região. Podemos prever que os pontos de observação da Turquia na região servirão de elementos dissuasor, mas ainda assim serão testados nos próximos tempos pelo regime e pelas milícias que o apoiam, como parte de uma possível operação contra Idlib. A Turquia trava o bombardeamento da região por terra, com os seus 12 pontos militares de observação.

Podemos observar como a capacidade militar do regime sírio é insuficiente para lançar uma operação de larga escala contra Idlib. O regime de Damasco está completamente dependente da Rússia e do Irão nesta questão. Podemos também dizer que a decisão do regime de Assad - sob a influência da Rússia - de atacar Idlib, não poderá avançar sem a aprovação da Rússia e do Irão. Por isso, pode-se dizer que a decisão do regime de Damasco de atacar Idlib, apenas poderá avançar com a aprovação e o apoio concreto e de larga escala da Rússia.

A Turquia esforça-se por salvar a região, onde vivem 3 milhões de civis, de uma grave crise humanitária, através das negociações sobre Idlib que irá levar a cabo com a Rússia. Apesar dos ataques aéreos contra a região, a Turquia tenta reduzir de todas as formas possíveis estes ataques aéreos por vias diplomáticas. Isto porque não é possível à Turquia deter de facto a Rússia nem a força aérea do regime sírio, no espaço aéreo da Síria. Além disso, é preciso reduzir a presença de organizações radicais em Idlib e eliminar os pretextos usados pela Rússia e pelo regime, para justificarem as suas operações aéreas contra a região.

É de suma importância que a Turquia reúna todos os opositores debaixo do mesmo teto, para pôr fim aos conflitos na Síria e para que seja encontrada uma solução política no final do processo de Astana. É indispensável que o regime e os seus aliados evitem ter atitudes agressivas contra Idlib, e que parem com os seus ataques aéreos. Mas observamos que o regime quer eliminar a oposição síria do ponto de vista militar, e pretende desativar as forças revolucionárias eliminando os opositores em Idlib. Por outro lado, a oposição mantém a sua presença como um elemento de pressão sobre o regime, de acordo com a redação da nova constituição e dos passos seguintes que serão dados no âmbito dos processos de Astana e de Sochi.

A proteção de Idlib é de suma importância para a Turquia, para evitar o fluxo de refugiados e para não perder a sua influência nas regiões onde foram executadas as operações Escudo do Eufrates e Ramo de Oliveira, bem como para que a Turquia não ponha fim à sua luta contra o PYD/YPG, o braço do PKK na Síria. A Turquia quer também ter uma palavra nas negociações sobre a Síria.

Esta foi a opinião sobre este tema de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais (SETA)



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