Será o posicionamento correto suficiente por si só?

Quais são as nossas falhas fundamentais que devemos compensar e que não têm que ver com perspetivas corretas? A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yildirim Beyazit em Ancara.

Será o posicionamento correto suficiente por si só?

No programa da semana passada, falei sobre a necessidade de fazermos abordagens a partir de uma perspetiva de autoconfiança e de forma analítica, sem nos deixarmos vencer pela psicologia de derrota face aos problemas e conceitos, incluindo o Ocidente.

Mas serão um posicionamento correto e uma perspetiva adequada suficientes por si só? Podemos resolver os nossos problemas só pelo facto de termos o ponto de vista correto?

O posicionamento correto, bem como a visão e a perspetiva certas, são talvez os elementos básicos para podermos resolver os problemas e atingirmos os nossos objetivos. Quando seguimos na direção errada, não podemos alcançar os objetivos que definimos, mesmo que façamos a coisa certa. Por isso, outro grande problema é não saber qual é o objetivo, ou pior ainda, definir um objetivo errado.

Nenhum vento poderá ser útil a um veleiro que não saiba o seu destino. Por isso, não faz sentido falar da necessidade de ter uma perspetiva certa, sobretudo face a processos, conceitos e termos com que nos deparamos ao longo da vida.

Será suficiente ter um posicionamento certo e não fazer mais nada? Temos que nos focar nesta questão. Isto porque muitas vezes diz-se que bastam as discussões intelectuais e ter uma base intelectual. E é dada demasiada importância às tertúlias intelectuais entre grupinhos em cafés, que nada fazem e que não promovem a produção. Podem os problemas do mundo islâmico ser resolvidos apenas com pensamentos corretos? Que distância conseguimos percorrer apenas com ideias?

Os pensamentos, obviamente são valiosos. Os pensamentos mudaram a história da humanidade ao longo do tempo. Mas esta façanha só foi possível porque as ideias foram postas em prática e não se ficaram apenas pela teoria. As ideias conceptuais não modelam a nossa vida. São os passos concretos que o fazem.

Mesmo que tenhamos um posicionamento e uma visão corretas, se não fizermos um esforço para mudar alguma coisa com a nossa visão, se a nossa visão não fizer nada de concreto para mudar algo que se passa à nossa volta, o que poderá esta visão mudar por si própria? Podemos ter uma visão maravilhosa, mas se nada fizermos, mais vale continuarmos a dormir. Aqueles que dizem que podemos mudar alguma coisa apenas com debates intelectuais e pensamentos que não são postos em prática, e que desprezam mesmo o lado prático das coisas, não estão a fazer outra coisa senão a enganar-se a si próprios.

Outra questão que vale a pena debater, é perceber de que serve uma visão correta quando estamos num gueto fechado ou numa torre de marfim, completamente desgarrada da vida real. As reflexões produzidas em torres de marfim sem qualquer ligação com as experiências de vida e sem aplicação prática, podem dar azo a prejuízos. Lamentavelmente, a história está cheia de prejuízos causados por este tipo de ideias, produzidas sem ligação à vida real.

Uma visão desgarrada da vida e que abarque todos os campos da nossa vida, poderá ter resultados terríveis. Por isso, uma visão e um pensamento correto apenas podem ser fruto da vida e da experiência da vida. A chegada do islão aconteceu desta forma. O islão completou o seu processo de chegada à vida em relação a factos concretos, e de uma forma estendida ao longo do tempo, e não de uma só vez nem de forma conceptual.

Apesar de tudo, não estamos a viver uma grande incerteza em termos do caminho que deve ser percorrido, nem sobre as tarefas que têm que ser concretizadas. As regras básicas são bastante óbvias.  O que não está em sintonia com a perpetiva correta, são as nossas tarefas sempre que não sejam coerentes com os nossos postulados. Além disso, a falta de execução decorre da nossa falha de atitude, mesmo que tal nos seja imposto pelos nossos postulados.

Mas a vida é a fé e a ação. A ação é a tarefa, o esforço e o desafio. A jihad, no sentido do combate como um tipo de luta, é uma situação de que raramente se precisa hoje em dia. Façamos o que façamos, devemos lutar pelo melhor, pelo mais bonito, pelo caráter, pelo que é correto e por trabalhar melhor. Não basta dizer que isto ou aquilo tem caráter e é o correto. Pelo que é correto, devemos lutar com toda a nossa força.

Quando regressamos à pergunta que dá o título a este programa, o posicionamento correto é sem dúvida uma condição indispensável para alcançar todo o tipo de objetivos. Porque a visão incorreta poderia arrastar-nos até um cataclismo, que nos afasta dos nossos objetivos. O posicionamento errado, por muito benévolo que seja, poderá acabar com as intenções e com os sentimentos mais agradáveis.

A visão correta, por si própria, não pode salvar-nos. Imaginemos que a visão vem equipada com um motor. Assim que esse motor é posto a funcionar, será capaz de nos conduzir até aos nossos objetivos. Mas uma boa visão não consegue atingir os seus objetivos de forma espontânea. A visão correta é apenas o início. O que produz resultados são os passos concretos, com uma perspetiva centrada no objetivo com um posicionamento correto.

Quais são as nossas falhas fundamentais que devemos compensar e que não têm que ver com perspetivas corretas?  Poderemos resolver os nossos problemas sem olhar para os nossos erros e focando-nos apenas nos erros dos outros, mesmo que tenhamos razão? Só por acendermos uma vela, será que isso basta para pôr fim à escuridão?

Esta foi a opinião Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yildirim Beyazit em Ancara


Etiquetas: pensamentos , ação , teorias , Ideias

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