A crise na Venezuela – Parte 1

Todos os desenvolvimentos internos e externos tiveram um impacto direto e indireto na imagem, perceção e na política da Venezuela na região. A análise de Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia da Turquia.

A crise na Venezuela – Parte 1

A Atualidade da América Latina / 31º programa

A Venezuela atravessa uma séria crise desde a morte de Hugo Chávez. Esta é uma crise muito para além de uma situação normal, e de uma questão regional vai-se transformando pouco a pouco num problema global. Apesar de possuir as maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela atravessa uma crise económica muito séria.

Existem problemas sociais muito graves e estima-se que 4 milhões de pessoas terão abandonado o país para tentar encontrar uma vida melhor. Que nome se pode dar a esta crise, que é seguida por todo o mundo? Para tentar perceber esta crise, é muito importante olhar para a Venezuela de forma detalhada, olhando para todos os seus problemas, atores e para as suas ruas sem saída.

É precisar referir de antemão, que no passado, esta crise começou na realidade dentro do partido de esquerda no poder na Venezuela, logo após a morte de Hugo Chávez em 2 013. Alguns nomes de topo no partido apoiaram Maduro, apenas por causa da indicação dada por Chávez antes de morrer.

Maduro, que é alvo de chacota por ter sido condutor de autocarro, era muito próximo de Chávez. Mas nunca conseguiu ter o mesmo prestígio do seu antecessor, nem tem a sua capacidade intelectual. Quando Maduro chegou ao poder, as pessoas começaram por tentar perceber se teria sucesso a lidar com as críticas. Mas a única garantia que deu, foi de que o seu partido iria melhorar o país.

Com o passar do tempo, e apesar da força que Maduro conseguiu conquistar no partido, o presidente venezuelano nunca conseguiu controlar por completo o seu partido, nem alcançar o prestígio que tinha Chávez. A competição interna dentro do partido, pouco a pouco espalhou-se a todo o país, devido ao mau governo e à crise interna que se instalou no país. Os preços do petróleo caíram muito rapidamente e isto deu origem a uma crise económica, que por sua vez fez surgir outros problemas. A corrupção começou a ser um problema cada vez maior e a competição entre as elites do país aumentou, em particular na questão da repartição dos lucros do petróleo.

A crise interna do país começou a transformar-se num assunto ligado ao governo, e o povo começou a sentir a crise em termos económicos e sociais. A inflação disparou, e em vez de apoiar os projetos de apoio e de solidariedade dos tempos de Chávez, a população começou a estar contra esses programas. Durante o mesmo período, uma onda de direita começou a controlar a política da América Latina, substituindo os regimes esquerdistas. E isto teve um impacto negativo sobre a Venezuela.

Começaram então as pressões sobre a Venezuela, tanto dentro como fora do continente, e o país perdeu os estados aliados e a sua influência na América Latina. Num período em que Cuba procura uma mudança, a Venezuela teve um governo que não foi capaz de satisfazer a sua população, e entrou num processo em que se aprofundaram as guerras entre as elites sem dinheiro.

As relações de Maduro com atores como o Irão, a Rússia e a China, nunca foram tão boas como durante os governos de Chávez. Isto significa que pouco a pouco, a Venezuela foi perdendo o apoio externo com que contava, e esta situação fez mudar o rumo do país.

O Irão, depois do acordo que assinou com o Ocidente, começou a agir em relação à Venezuela de uma “forma normal”. A Rússia, devido às suas questões críticas e aos problemas que teve com o Ocidente e na sua região envolvente, voltou a focar-se na sua geografia e deixou de atribuir tanta importância à Venezuela. E a China, acabou por concentrar mais a sua atenção no Equador. Quito é agora o ponto chave a partir do qual a China olha para a América Latina. A capital equatoriana passou a ser o epicentro da presença da China no continente.

Todos estes desenvolvimentos internos e externos, tiveram um impacto direto na imagem e na perceção da política da Venezuela na região. Com as situações que funcionaram bem a nível interno, nas eleições parlamentares em 2 015, a oposição obteve a maioria no parlamento. Depois desta derrota eleitoral, que teve um peso simbólico, terminou a hegemonia do partido de Maduro, e a Venezuela passou a adotar uma postura defensiva em vez de reorganizar os seus processos.

O parlamento, depois de passar para o controlo da oposição, passou a ter uma palavra a dizer na administração do país. Mas através de pequenos movimentos, o poder acabou por ficar todo concentrado na presidência. Apesar da oposição ter tido peso suficiente para convocar novas eleições presidenciais, Maduro tentou encontrar uma forma legal de impedir as eleições e usou de todos os métodos.

A população que participou neste processo de mudança começou a ver a sua vida dificultada, nomeadamente na obtenção de bens básicos como alimentos e produtos de limpeza. E começou então uma vaga de emigração no país.

Hoje em dia, existe uma séria onda de imigrantes venezuelanos espalhados pela América Latina. Apesar de não se conhecerem os números exatos, estima-se que vivam 800 mil venezuelanos na Colômbia, e muitos mais na Argentina, Brasil, Equador e outros países. Esta onda migratória fez com que a crise interna assumisse um caráter regional, e por isso os países da região ofereceram-se para ajudar a encontrar respostas para o problema.

Maduro ignorou a crise migratória e o bolívar – a moeda da Venezuela – começou a perder valor, devido à elevada inflação. O poder de compra dos venezuelanos caiu muito, visto que os salários não acompanharam a subida dos preços. E foi assim que piorou a situação económica e social do país.

Desde que chegou ao poder, uma das maiores forças de Chávez foi ter dissolvido a oposição. Em 2 008, os partidos da oposição que se juntaram para essas eleições, apresentaram-se como uma força única sob a designação de Mesa de Unidade Democrática. Na primeira tentativa não tiveram grande sucesso, devido ao carisma de Chávez. Mas nas eleições de 2 015 obtiveram a vitória e passaram a controlar o parlamento. A Mesa de Unidade Democrática por várias vezes dissolveu-se, sempre que não chegou a acordo em relação às políticas a seguir. Na verdade, os problemas desta coligação podem ser resumidos em termos de uma batalha de egos entre os vários líderes, que tentam provar-se a si próprios para um futuro cenário já sem Maduro.

Apesar de Maduro ter tido uma séria derrota eleitoral em 2 017, no fim de contas não perdeu nenhum do seu poder e acabou por se sobrepor à oposição, que encheu as ruas de gente. Nos protestos que se seguiram, morreram dezenas de pessoas e o povo venezuelano não se aproximou da oposição. Pelo contrário, surgiu a ideia de que a oposição era a favor da violência e que estava mais focada nos seus interesses do que em encontrar uma solução.

Foi então neste ambiente que tiveram lugar as eleições para a Assembleia Constitutiva, e em que o partido de Maduro ganhou as eleições sem problemas, tal como desejava o presidente venezuelano. E entrou-se então num novo processo. Desde então, Maduro e a sua equipa garantiram o poder único no país. Mas o que significa esta situação? Vamos continuar a falar sobre este assunto no próximo programa, bem como sobre os impactos desta situação em todas as suas dimensões.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Dr Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia da Turquia


Etiquetas: Maduro , crise , Venezuela

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