Evangelismo: arrastar Deus para o Dia do Juizo Final e a humanidade para um desastre

Forçar Deus ao Dia do Juizo Final é algo que está para além da capacidade humana. Mas é muito claro que a humanidade se está a dirigir para um desastre. A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Fac. de Ciências Políticas da Univ. Yildirim Beyazit.

Evangelismo: arrastar Deus para o Dia do Juizo Final e a humanidade para um desastre

Perspetiva Global 32

Nos últimos tempos discutimos intensamente a relação entre religião e o estado, devido à herança fatal deixada pela Organização Terrorista Gulenista (FETO) na política turca. Muitas vezes, consideramos e lamentamos que os fenómenos ocorridos no nosso país pertencem apenas a nós próprios. A decisão dos EUA contra a Turquia, por causa do pastor evangélico americano Andrew Brunson, mostrou uma vez mais que não é o caso.

A opinião pública turca não sabia da presença de Brunson, que trabalhava como missionário na Turquia há dezenas de anos, antes de ter sido acusado depois do 15 de julho de 2 016. A decisão dos EUA de impor sanções contra a Turquia por causa da detenção de Brunson, acusado de apoiar o PKK e a FETO, obrigou a repensar as relações entre a religião e o estado nos Estados Unidos. Apesar deste caso estar a ser visto como uma questão de liberdade religiosa nos EUA, este caso obriga-nos antes a repensar as relações entre religião e o estado nos Estados Unidos, pois já não é possível perceber as decisões e declarações que violam a soberania de outros países.

A harmonia nas relações entre a religião e o estado, não é algo que deva ser criticado. Pelo contrário, esta situação pode ser muito positiva na questão da liberdade religiosa. Por isso, os Estados Unidos, fundados pelos que fugiam das guilhotinas e intolerância religiosa na Europa, são justamente considerados como um país onde até há pouco havia mais liberdade religiosa.

Para além da harmonia nas relações entre religião e estado, o facto dum país ser um estado teocrático, não é algo que deva ser criticado. Um estado religioso, que aborda as diferenças com tolerância e que aceita o pluralismo religioso, não representa um problema em termos das liberdades e dos direitos humanos. Além disso, este tipo de situação pode impedir os desígnios imperialistas dos países. As práticas do Estado Otomano, com grande presença da religião, são o expoente máximo desta situação.

Não devemos opormo-nos a que as religiões tenham uma relação coerente com os estados, baseada nos direitos e liberdades fundamentais, a menos que um estado use a religião para os seus próprios interesses imperialistas. Pelo contrário, devemos opormo-nos a que uma religião transforme o estado num aparelho a favor dos seus interesses imperialistas, sem quaisquer princípios e valor.

Israel, um estado teocrático, ou o sionismo – uma religião de estado – podem ser dados como exemplos de um posicionamento errado das relações entre a religião e o estado. Os muçulmanos, cristãos e judeus, que convivem juntos desde há séculos, já não podem conviver sob a administração israelita.

Quanto aos EUA, tentam impôr sanções à Turquia através do seu vice-presidente, Mike Pence, que é um evangelista tal como Brunson. Os evangelistas são muito influentes na comunidade, política e aparelho de estado americano. Há 90 milhões de evangelistas nos EUA, e dois presidente americanos também o eram (Ronald Reagan e George W. Bush). Por isso, o caso de Brunson não tem nada a ver com a Turquia, mas sim com o evangelismo e com os EUA.

O que é o evangelismo?

Há que dizer desde logo que o evangelismo não é ortodoxo nem católico, mas sim uma seita religiosa protestante. Começou a diferenciar-se no século XIX. Evangelismo significa “em direção ao livro sagrado”.

O livro sagrado não é apenas a Bíblia – sagrada para os cristãos – mas também o Antigo Testamento, sagrado para os judeus. Segundo esta abordagem protestante revista, o cristianismo dominará todo o mundo, na hora do Juizo Final. Mas esta situação poderá ainda demorar, em condições naturais. Segundo os evangelistas, o processo deve ser acelerado. Aparantemente, o que distingue os evangelistas dos outros cristãos, é o facto de considerarem os judeus como o povo eleito, cujos territórios também pertencem aos evangelistas. E por isso, consideram que os cristãos devem apoiar fortemente os evangelistas, para conquistarem estes territórios.

Segundo o Dr. Ozcan Gungor, convidado desta semana de um programa da TRT, o processo deve acelerar em 7 fases, para que o evangelismo domine todo o mundo:

 

Fase 1:

Os judeus regressam à Palestina. Esta fase está em grande medida completa.

 

Fase 2:

A criação do Grande Israel, que inclui também uma parte da Turquia. O motivo pelo qual os EUA apoiam incondicionalmente Israel no Médio Oriente e reconheceram Jerusalém como a capital do país - apesar da oposição de todo o mundo e das Nações Unidas - é a influência do evangelismo na política americana. Na verdade, é impossível justificar esta política com base na racionalidade.

 

Fase 3:

A mensagem da Bíblia é divulgada a todo o mundo. O pastor Brunson estava na Turquia há mais de 10 anos, provavelmente por causa deste objetivo. Mas sabe-se que não apenas na Turquia, mas também em muitos países e sobretudo nos estados muçulmanos, os missionários evangelistas fazem estudos intensos, e converteram ao cristianismo milhões de pessoas, principalmente em África.

 

Fase 4:

Um período de catástrofe que durará 7 anos.

 

Fase 5:

Jesus regressa à Terra.

 

Fase 6:

Tem lugar a batalha do Armagedão, sob a liderança dos evangelistas, que colocará frente a frente os bons e os maus, numa guerra fatal. Os bons vencem o conflito. Por isso, Israel deve expandir as suas fronteiras, para que esta guerra comece o mais depressa possível e haja um domínio evangelista após essa batalha.

 

Fase 7:

O cristianismo domina em todo o mundo e tem lugar o Dia do Juizo Final.

 

Como vimos, os objetivos do evangelismo e do sionismo são exatamente os mesmos na 6ª Fase. Por isso, os evangelistas são também designados de “cristãos sionistas”.

Durante o século XIX, o judeísmo em particular, foi uma das religiões celestes a par do islão e do cristianismo. Os judeus sionistas, e em particular Theodor Herz,foram os dinamizadores da transformação do judeísmo. Atualmente, muitos judeus opõem-se fortemente ao judeísmo sionista.

Na Turquia e em alguns países islâmicos, fazem-se esforços para criar um islão coerente com o sionismo, o mais depressa possível. Os conceitos como “Diálogo entre Religiões”, e as abordagens e práticas desviantes em nome de um islão sem tradições, apontam para estes esforços. E estas fações dizem, tal como os evangelistas, que Israel é um território predestinado a ser dos judeus.

Pensar que uma crença coerente como o sionismo aparece espontaneamente dentro do cristinianismo, não parece possível tendo em conta as diferenças religiosas e os conflitos históricos. É muito óbvia e forte a dúvida em torno desta transformação, que parece ser um esforço sionista. Além disso, há muitos cristãos que se opõem ao cristianismo sionista.

Sabe-se da oposição do Papa católico à proclamação de Jerusalém como capital de Israel. Da mesma forma, também os ortodoxos olham com condenação para a forma como os evangelistas e outros, apoiam a brutalidade de Israel contra os muçulmanos.

Forçar Deus ao Dia do Juizo Final é algo que está para além da capacidade humana. Mas é muito claro que a humanidade se está a dirigir para um desastre.

Devemos opormo-nos a todos os esforços sionistas, que arrastam toda a humanidade para um desastre, rompendo o código genético das religiões. E isto só será possível com a cooperação entre judeus, cristãos e muçulmanos, cujo código genético não se transformou. Pois toda a humanidade quer a paz na Terra.

Esta foi a opinião sobre este tema do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit, em Ancara



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