A transformação das FARC na política colombiana

Que tipo de promessas políticas irá fazer as FARC? A análise de Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia da Turquia e coordenador para a América Latina da Agência de Coordenação e Cooperação da Turquia (TIKA).

A transformação das FARC na política colombiana

A Atualidade da América Latina (Capítulo 30)

As FARC, são o grupo de guerrilha esquerdista com o passado mais longo da América Latina. E a partir de agora, passa a existir enquanto partido político. O seu passado data da década de 1 950, e desde então mudou o seu nome de Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, para Forças Alternativas Revolucionárias da Colômbia, mantendo desta forma a mesma sigla, FARC. Mais caiu a palavra “armadas”, que foi substituída por “alternativas”.

Ninguém esperava que as FARC criassem um partido político na Colômbia com o mesmo nome que usaram durante o tempo das ações de guerrilha. Mas não foi apenas o nome do partido que não mudou durante a reunião da junta dirigente. O secretário geral das FARC continua a ser a mesma pessoa.

De certa forma, esta equipa de montanha baixou até à cidade e o nome FARC é agora um símbolo de abertura conhecida. O partido está agora a fazer preparativos desde as eleições de maio deste ano. Mas não tiveram sorte na política colômbiana. Porquê?

A política de esquerda é muito ativa na Colômbia. A política de esquerda faz claramente parte das eleições no país, desde meados da década de 80, com a presença do ex-presidente do município de Bogotá, Gustavo Petro, até ao Partido do Pólo Democrático. Mas nunca até agora, a esquerda tinha conseguido alcançar um grande sucesso. Por isso, é um tema de curiosidade para todos, saber que tipo de voz terão as FARC e qual será a sua estratégia para obter votos.

A segunda questão tem que ver com o facto das FARC serem responsabilizadas por todas as coisas más na Colômbia. O nome FARC está associado a muitos temas negativos como o terrorismo, o sequestro de pessoas, as matanças, o narcotráfico e muitas outras questões negativas. Nas zonas onde não existem eleitores das FARC em particular, o que irá fazer este grupo, e quem serão os seus candidatos? Esta é uma pergunta que todos colocam.

A maioria das pessoas esperava que as FARC renovassem a sua forma, aparecendo com candidatos de cara nova, para fazer esquecer o passado agora que se apresenta enquanto partido político. Mas não foi isto que aconteceu. Pelo contrário, as equipas de montanha das FARC desceram as encostas com um novo nome, e continuam a desenvolver o seu trabalho.

A terceira questão tem que ver com o facto dos grupos que fazem esta transformação, não perderem facilmente os seus hábitos. Sendo fiel a si mesma, nas zonas que domina continuam as políticas de pressão, o medo e a ameaça sobre o processo eleitoral.

É evidente para todos que o PKK na Turquia aplicou este tipo de métodos no sudeste da Anatólia. O estado colombiano não está presente em todos os cantos do país. O estado, apesar de tentar mostrar a sua existência de forma séria nas zonas rurais, ainda vai levar tempo a implementar-se nessas regiões.

Ao longo das eleições que se irão disputar nos próximos anos, veremos se as FARC continuam ou não a usar métodos de pressão nas zonas por si controladas. Mas se usarem a política do medo, é possível que aconteça na Colômbia um processo semelhante ao que aconteceu no sudeste da Anatólia.

O quarto ponto importante, é saber quais as promessas políticas que as FARC irão fazer. Irá este partido dizer que acabará com os problemas, quando o partido é ele próprio responsabilizado por todos os problemas?

Na América Latina, onde a ideologia de esquerda perde força todos os dias e começa a ser vista como não grata, o que podem as FARC dizer de novo à Colômbia? Estas perguntas permanecem por enquanto sem resposta.

Para as FARC, que apresentam como motivo da sua criação o desenvolvimento do mundo rural, qual é atualmente o modelo ideal de desenvolvimento rural? Na Colômbia, um país composto essencialmente por montanhas como traço marcante da sua geografia, e que sofre de uma grave falta de infraestruturas, como se poderão desenvolver as zonas rurais? As FARC continuam sem dar a resposta a estas perguntas enquanto partido político. E ninguém espera que anunciem as suas propostas no curto prazo. Mas quando começarem as campanhas eleitorais políticas, toda a gente quer saber que voz terão as FARC.

Os principais problemas na Colômbia são o desemprego, a corrupção e a desigualdade de rendimentos. Num país onde os ex-juízes do Tribunal Constitucional são investigados por corrupção, as FARC até agora não disseram uma única palavra.

A injustiça na repartição de rendimentos e a forma de resolver esta questão, ainda não faz parte da agenda das FARC. O povo espera, no geral, os passos políticos em relação a esta questão.

Existem dois caminhos para as FARC: irá o partido continuar o seu discurso esquerdista sobre o continente, ou mudará e transformar-se-á num partido normal da vida política, contribuindo de verdade para a política da Colômbia, agora que já não é a FARC de outros tempos? As FARC deverão contribuir com a sua política, declarações criativas e com sentido. Se for este o caminho seguido pelas FARC, poderá deixar para trás a sua política de esquerda que não funciona no continente. Mas se não se afastar das suas antigas tradições, não me parece que possa ter muito êxito na política.

Atualmente, e num momento em que parece que existem diferentes abordagens na sua base, o partido poderá dividir-se em grupos distintos, relativamente aos quais não será fácil garantir a unidade. Na realidade, as políticas implementadas pelas FARC enquanto grupo armado, foram o produto lógico da guerra. Agora, as FARC enquanto novo partido político, apelam a uma sociedade e a uma nova geração diferente. Não me parece que possam vir a ter muito êxito, se não se renovarem em todos os aspetos.

Esta foi a opinião sobre este tema de Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia da Turquia e coordenador para a América Latina da Agência de Coordenação e Cooperação da Turquia (TIKA)



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