Os objetivos regionais dos Emirados Árabes Unidos e a tensão com a Turquia

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) desde há muito tempo que são o ator principal das intervenções, golpes de estado e guerras civis. A análise do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Ataturk.

Os objetivos regionais dos Emirados Árabes Unidos e a tensão com a Turquia

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) seguiram nos últimos anos uma intensa política expansionista, e têm como objetivo passar a ser uma força regional. E por outro lado, continua a tensão entre os Emirados Árabes Unidos e a Turquia. No programa desta semana, vamos analisar os objetivos regionais do EAU e a tensão entre a Turquia e esse país.

Nos últimos anos, os Emirados Árabes Unidos levaram a cabo uma política expansionista silenciosa mas intensa. O seu desejo básico é transformarem-se numa força regional em toda a zona do Médio Oriente, Norte de África e Oriente. Os Emirados Árabes Unidos estão direta ou indiretamente ligados a todos os conflitos na região. Os Emirados Árabes Unidos são o 6º país mais rico do mundo no que diz respeito aos seus recursos petrolíferos. Este estado, situado na costa oeste da Península Arábica é vizinho de Omã a leste e da Arábia Saudita a sul. Na sua fronteira ocidental, o país tem como vizinho o Qatar, e a norte, na sua fronteira marítima, os Emirados Árabes Unidos são vizinhos do Irão.

Os Emirados Árabes Unidos foram criados em 1 971, com a união de 7 emirados: Abu Dabi, o Dubai, Sharjah, Fuyaira, Ras al-Jaima, Umm al-Qaywayn, Ajman e Sarja. Os Emirados Árabes Unidos são uma federação composta por estes 7 emirados. Quase 90% do território e da produção de petróleo dos Emirados Árabes Unidos pertencem ao Emirado de Abu Dabi. O segundo maior emirado da federação é o Dubai.

Os Emirados Árabes Unidos desde há muito tempo que são o ator principal das intervenções, golpes de estado e guerras civis. Nos últimos anos, o país gastou o seu dinheiro, energia e força de lobi, sempre no sentido da polarização no Médio Oriente. O aumento do seu poder económico é o principal objetivo por detrás destas iniciativas. Para os Emirados Árabes Unidos, que têm 10% dos recursos petrolíferos do mundo e são o 7º maior exportador de petróleo mundial, é importante garantir a segurança do abastecimento energético no Golfo Pérsico.

No comércio do Médio Oriente e no setor das finanças, o Dubai ocupa uma posição central importante. Por este motivo, é de vital importância para os Emirados Árabes Unidos controlar as rotas comerciais navais, bem como as rotas de energia entre a Ásia e a Europa. Os restantes objetivos dos EAU são de caráter político. O primeiro desses objetivos políticos é preencher o vazio, que surgiu num período em que o mundo árabe se despedaça com combates internos, entre os centros mais antigos da civilização como o Cairo, Damasco e Bagdade, que perderam força. Os Emirados Árabes Unidos têm também como objetivo impedir o caminho da Turquia e do Irão enquanto forças que aumentam e ampliam a sua influência. O segundo objetivo político do país é opôr-se à onda de mudança no Médio Oriente, usando todos os seus meios para fazer fracassar este processo se for possível.

Não é segredo para ninguém, que desde há muito tempo se vive um problema entre os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Turquia. Os Emirados Árabes Unidos até ao golpe de estado no Egito, pareciam ser um bom parceiro comercial e político para a Turquia. Mas depois do golpe de estado no Egito, tudo começou a mudar. Após o golpe de estado no Egito em 2 013, a Turquia, o Qatar e o Bloco da Arábia (no qual se incluiem os Emirados Árabes Unidos), optou por apoiar focos de força diferentes. Enquanto a Turquia e o Qatar apoiaram Morsi – que chegou ao poder através de eleições democráticas – o Bloco da Arábia deu apoio moral e material a Sisi.

Em relação ao Egito, a Turquia e o Qatar tentaram apoiar o direito à continuidade do governo eleito. Já os Emirados Árabes Unidos e os seus aliados, deram a Sisi o apoio económico de que ele precisava. Os EAU, com as suas manobras políticas inesperadas, entraram na vida política do Egito. E durante este processo, deram também apoio à Arábia Saudita e a outros países do Golfo Pérsico.

Os Emirados Árabes Unidos consideram a Turquia como um obstáculo contra as suas tentativas de controlar a região. O país está em competição direta com a Turquia em muitas zonas, dos Balcãs até à Somália. Na Somália, os Emirados Árabes Unidos usam a sua força económica contra a Turquia, e não para a construção da Somália, que é o que faz a Turquia. Desde os acontecimentos de Gezi até ao 15 de julho, todos os grupos que estavam de olhos postos contra a estabilidade da Turquia, receberam apoio dos Emirados Árabes Unidos. Recentemente, na imprensa internacional, surgiram notícias de que os Emirados Árabes Unidos deram apoio financeiro à tentativa de golpe de estado de 15 de julho, na Turquia. Este assunto surge também de vez em quando na imprensa turca.

O Golfo Pérsico em particular e os países da Península Arábica, tanto nas questões relacionadas com a população xiita como nos temas sobre a segurança nuclear, têm um problema com o Irão. As relações que o Irão tenta desenvolver com a Turquia e com o Qatar, aumentam ainda mais as preocupações desses países. E isto porque o Qatar é o país do Golfo Pérsico que surge no topo das preocupações nas duas questões em causa. Mas o Qatar está mais próximo do Irão e da Turquia, para além de ter apoiado a Irmandade Muçulmana no Egito.

Tudo isto preocupa também a Arábia Saudita, e obrigada Riade e Abu Dabi a pensar em toda a situação. Os Emirados Árabes Unidos consideram que o Qatar e a Turquia atuam de forma conjunta nesta questão. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos sofrem de paranóia em relação à Turquia, e acham que a Turquia se prepara para intervir contra os Emirados Árabes Unidos.

A grande atividade da Turquia em relação aos Emirado Árabes Unidos, tem que ser analisada na perspetiva das relações com o Irão. Os EAU sentem um enorme incómodo tanto contra o Irão, como contra aqueles que colaboram com o Irão. Por este motivo, os Emirados Árabes Unidos atuam com base no pressuposto de que “o amigo do meu inimigo, é meu inimigo”. Além disso, a base militar da Turquia em território do Qatar, neste contexto geral, também preocupa bastante os Emirados Árabes Unidos.

Naturalmente, tanto o tempo como os desenvolvimentos irão determinar como toda esta situação se vai resolver. Até aos Emirados Árabes Unidos pararem com a sua atitude agressiva, é difícil que haja paz. Todos os atores neste processo, incluindo a Arábia Saudita, estão a adotar a mesma atitude. Por este motivo, o problema dos Emirados Árabes Unidos tem que ser resolvido de forma conjunta, pelos países responsáveis do Médio Oriente.

Os Emirados Árabes Unidos, em vez de seguirem uma política nacional que tenha em consideração as necessidades dos povos e os requisitos da nossa era, tentam trazer de volta a antiga ordem através dos serviços secretos e da exportação de meios políticos. Será que os Emirados Árabes Unidos poderão ter sucesso? Na minha opinião, não. A política dos Emirados Árabes Unidos causa destruição. Com esta política, não é possível construir nem criar estabilidade, já que os Emirados Árabes Unidos não têm uma visão real da região.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Dr Cemil Dogaç Ipek, catedrático do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Ataturk



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