Notas sobre a vida intelectual na América Latina

Quando olhamos para as preferências de leitura dos académicos da América Latina, surgem duas dimensões: a leitura de autores que escrevem em inglês e a opção pelas publicações práticas e adaptáveis. A análise de Mehmet Ozkan, coordenador da TIKA.

Notas sobre a vida intelectual na América Latina

Quando se olha de fora para a vida académica na América Latina, constata-se que tem uma atmosfera mais dimensional e profunda do que se passa noutras regiões. Em particular devido à rica língua espanhola, ao seu domínio profundo e à sua capacidade de criar um mundo imenso sobre a língua de forma importante, espera-se que os académicos da América Latina ofereçam uma literatura ampla e multidimensional, tanto ao nível teórico como prático.

Neste continente, que nos trouxe nomes famosos como Mario Vargas Llosa ou Gabriel García Márquez, infelizmente não surgiram recentemente outros grande nomes, por motivos desconhecidos. Esta situação está diretamente relacionada com o estreitamento intelectual que ocorre a nível global. Mas os reais motivos por detrás desta situação têm que ver com problemas estruturais do mundo académico. Mas como devemos analisar a situação na América Latina em particular?

É preciso referir em primeiro lugar, que o mundo académico da América Latina dá sobretudo importância aos doutoramentos feitos nos Estados Unidos, e noutros países estrangeiros fora do continente. Apesar da situação se ter alterado um pouco face ao que se passava há uma década atrás, os diplomas ocidentais continuam a ser mais importantes. Quando uma pessoa obtém o seu doutoramento na América Latina e quer trabalhar nos países ocidentais, as ofertas que recebe ficam-se por um nível próximo dos 60%. Os académicos latino americanos com relações com o Ocidente e que escrevem os seus artigos em inglês, têm sempre vantagem face aos outros.

Tendo em conta este tipo de abordagem, podemos dizer que há uma relação de “dependência voluntária”, em que o mundo académico da América Latina se sente como uma peça da opinião ocidental sobre o mundo. Esta é aliás uma situação comum há que se vive no mundo académico de outros países do terceiro mundo.

Em segundo lugar, a maioria das universidades da América Latina não tem doutorados. Os doutoramentos são muito caros no continente, e há muitas pessoas apenas com mestrados que podem exercer durante muitos anos, uma carreira académica nas universidades. A maior parte das pessoas doutoras, só conseguiu finalizar esse grau académico graças às bolsas que obtiveram do estrangeiro. Devido a este problema estrutural, a academia do mundo latino está dividida em dois, o que na prática significa que há os melhores e os piores. Neste processo, inevitavelmente os professores com doutoramento facilmente conseguem fazer publicações de artigos nos seus países e no estrangeiro. Para todos os outros, apenas as revistas académicas nacionais aceitam os seus trabalhos, e tornam-se nos seus locais de sobrevivência. Adicionalmente, há muitos académicos que não falam outros idiomas, nem sequer o inglês. E por isso, não são capazes de determinar a agenda através dos seus comentários sobre a atualidade. Apenas transmitem a informação como catedráticos.

O terceiro ponto a referir sobre esta questão, é o facto de existir um bom número de revistas académicas e casas de imprensa na América Latina. Mas segundo os inquéritos feitos a este respeito, a maioria dos académicos prefere ler as publicações em inglês. Além disso, os inquéritos revelam também que os artigos escritos em inglês têm mais prestígio. Esta situação, na realidade não é mais do que o reflexo da situação que também ocorre em muitos países dos mundo, incluindo a Turquia.

O quarto ponto desta questão é particularmente importante: Quem lê os artigos académicos? Quando olhamos para as preferências de leitura dos académicos da América Latina, surgem duas dimensões: a primeira, são as leituras daqueles que escrevem em inglês. E a outra, corresponde à preferência pelas publicações de caráter prático e adaptável. Neste contexto, as revistas preferidas no continente são a Foreign Policy, Foreign Affairs e as suas versões em espanhol (Foreign Affairs Español – Latino Americano). Isto não é uma coincidência, mas sim uma tendência para responder ao interesse que vem do continente.

Em jeito de observação final, podemos dizer que os académicos da América Latina gostam dos assuntos que dependem de detalhes. Talvez isto seja uma consequência da influência direta do meio académico ocidental, de pessoas que querem investigar detalhadamente e até ao fundo da questão, mantendo-se dessa forma no micro nível do assunto. Esta situação, apesar de ser aborrecida para todos aqueles que não tenham interesse nesse nível de detalhe, é considerada como sendo um método controlável e gerível para muitos académicos.

Geralmente, depois de resumir as características do mundo académico da América Latina, perguntam-me quais os autores que devem ser lidos. E eu dou sempre uma pequena lista. Claro que a lista de todos os autores pode ter aspetos diferentes, mas olhar para todos estes nomes, ajudará todos a perceber melhor as tendências gerais no continente. Jorge Costanada do México, Arlene B. Tickner da Colômbia, Ferid Kahhat do Perú, e ainda Hernando de Soto e Carlos Escude da Argentina, já para não falar de Atilio Borón e Monica Hirst. Do Brasil, recomendo Fernando Henrique Cardoso e Monica Herz. Do Chile, recomendo Luciano Tomassino.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia da Turquia e coordenador para a América Latina da Agência de Cooperação e Coordenação da Turquia (TIKA)



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