Um viajante até à raiz da civilização perdida: Fuat Sezgin

O cientista Prof. Dr. Fuat Sezgin, que dedicou a sua vida a contribuir para a ciência moderna dos muçulmanos, faleceu no dia 30 de junho aos 94 anos de idade. A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul.

Um viajante até à raiz da civilização perdida: Fuat Sezgin

Perspetiva Global / Programa 27

O cientista Prof. Dr. Fuat Sezgin, que dedicou a sua vida a contribuir para a ciência moderna dos muçulmanos, faleceu no dia 30 de junho aos 94 anos de idade. Os êxito e a herança que nos deixou são tantos, que serão precisas várias vidas para fazer tanto. Fuat Sezgin trabalhou toda a vida como um relógio que nunca parou.

O que torna este sábio especial?

De Bitlis para o mundo…

Fuat Sezgin nasceu em Bitlis em 1 924. Recebeu formação em teologia básica e língua árabe pelo seu pai, que era um mufti local. Continuou depois a sua vida académica no Instituto de Orientalismo da Faculdade de Literatura da Universidade de Istambul, em 1 943. E foi aí que conheceu o orientalista alemão Hellmut Ritter.

Às vezes a bondade nasce da maldade…

Enquantro o professor Fuat continuava os seus estudos académicos, saiu da faculdade juntamente com muitos outros cientistas depois do golpe de 1 960. O seu único crime foi ser irmão do presidente provincial do Partido Democrático. Sezgin, um académico de 36 anos, ficava assim sem trabalho na Turquia. Mas como sempre acontece, sempre que se fecham as portas às pessoas trabalhadoras no seu país, abrem-se outras portas noutros locais do mundo. Sezgin acabou por ficar agradecido àqueles que o despediram da universidade, alguns anos depois: “Não gosto da sua política. Mas agradeço-lhes por me terem despedido, pois assim pude fazer estudos científicos na Alemanha”.

Fuat Sezgin recebeu convites dos Estado Unidos e da Alemanha quando se fecharam as portas na Turquia, mas preferiu a Alemanha por ficar mais perto de casa. E foi na Alemanha que se tornou o cientista mais prestigiado do mundo em teologia islâmica.

Não havia muçulmanos na história?

O professor Fuat foi como um invasor que tentou conquistar todo o mundo científico. Correu sem parar de biblioteca em biblioteca. Durante dezenas de anos, concentrou-se apenas nos estudos. O seu almoço foi muitas vezes apenas um pedaço de queijo e de doce.

O que fez o professor Fuat trabalhar sem parar, de forma sobre-humana? O reconhecimento científico, saído da sua obra. E o maior reconhecimento foi o abolir da crença de que os muçulmanos não tinham contribuído para as ciências modernas, e de que a ciência e tecnologia atuais se baseiam nos desenvolvimentos da antiguidade grega e da Europa. Fuat deparou-se com esta crença distorcida desde as primeiras semanas na escola primária: “Na segunda ou terceira semana da escola primária, a nossa professora falou de um mundo redondo e disse-nos que os sábios muçulmanos acreditavam que o mundo era empurrado pelos chifres de um boi. Eu, como pobre criança, só 30 anos mais tarde aprendi que os muçulmanos já mediam a longitude do Equador, usando métodos do século IX”.

O professor Fuat mostrou a contribuição dos sábios muçulmanos para as ciências naturais e técnicas, graças aos seus estudos. Juntamente com os avanços dos sábios muçulmanos, ele provou que a ciência e a filosofia da Grécia antiga, chegaram aos nossos tempos através dos sábios muçulmanos. E Foi muito dolorosa a conclusão do professor Fuat, de que muitos países ocidentais estão mais avançados que os próprios países islâmicos, no estudo da história da teologia islâmica.

(http://fazlioglu.blogspot.com/2018/06/prof-dr-ihsan-fazlioglu-prof-dr-fuat-sezgin-ilebilim-tarihi-uzerine-soylesi-pdf.htm)

Personalidade, abordagem e contribuições

Fuat Sezgin foi muito influenciado pelas ideias e disciplina de trabalho de Ritter. Quando se encontrou com ele pela primeira vez, não conhecia alguns dos grandes sábios muçulmanos mencionados por Ritter. E quando começou a trabalhar com ele, Ritter perguntou-lhe quantas horas trabalhava por dia. Fuat respondeu “14”, ao que Ritter retorquiu que não era tempo suficiente para se tornar sábio.

O professor Fuat trabalhou entre 17 e 18 horas por dia até envelhecer. Uma das marcas da sua personalidade é o trabalho intenso.

Outro elemento de destaque no professor Fuat, é o facto de ter abordado as ciências e a civilização islâmicas sem uma postura contrária face ao Ocidente e outros.

O professor Fuat tinha a autoconfiança dos cientistas muçulmanos do passado. E por isso nunca se intimidou em trabalhar com pessoas de diferentes idiomas, religiões e raças.

Sem dúvida, são preciosos os estudos do professor Fuat sobre as contribuições dos sábios muçulmanos para a ciência e tecnologia. No entanto, o professor não foi apenas um cientista, mas também uma figura que criou uma fundação e um instituto para o desenvolvimento académico da teologia, para além do Instituto de História e Teologia Arábe e Islâmica, em Frankfurt na Alemanha. Fuat criou também o Museu de Teologia Islâmica e História da Tecnologia, em Frankfurt e em Istambul, para que possam ser conhecidas as contribuições dos muçulmanos para a ciência e tecnologia.

A sua vida na Alemanha

A Alemanha foi muito importante na vida do professor Fuat Sezgin. Quando as portas se fecharam para ele na Turquia, depois do golpe de 1 960, a Alemanha deu-lhe oportunidades para continuar o seu trabalho. Foi na Alemanha que ele pôde trabalhar com autoconfiança e estudar sem quaisquer complexos. Por isso, devemos apreciar a Alemanha daquela época. Mas hoje em dia, a Alemanha está muito longe da sua antiga abordagem.

A Alemanha acusou Fuat Sezgin de “desfalcar livros”, depois de ele ter decido levar a sua biblioteca para a Turquia. A sua biblioteca na Alemanha foi encerrada e ele foi proibido de lá entrar. Apesar de tudo, o professor Fuat tentou que esta questão não se tornasse num assunto político, e não trouxe a questão para a opinião pública.

Quando olhamos para esta situação de forma isolada e a atitude da Alemanha no passado e no presente, constatamos que a Alemanha se está a transformar num país autista, com as mudanças negativas atuais.

Até há pouco tempo, o mundo turco e islâmico não se tinha dado conta do valor do professor Fuat Sezgin nem do valor das suas descobertas, que andaram perdidas durante séculos. As obras do professor Fuat Sezgin acenderam um fogo para muitos cientistas de todo o mundo.

Que descanse em paz!

Esta foi a análise sobre este tema dodo Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit, em Ancara



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