O massacre com armas químicas na Síria

É de enorme importância para o regime expulsar os opositores e recuperar Guta Oriental, de importância estratégica e que representa uma ameaça direta para o governo. A análise de Can Acun, investigador da Fundação SETA.

O massacre com armas químicas na Síria

Os meios de comunicação do mundo deram a notícia de que tinha ocorrido um novo ataque com armas químicas em Duma, uma cidade em Guta Oriental, na província Síria de Damasco – a capital da Síria. Lamentavelmente, neste ataque morreu um grande número de civis, na sua maioria mulheres e crianças. As primeiras conclusões apontam para o uso de gás de nervos.

Guta Oriental está nas mãos da oposição síria desde o começo da guerra, e sempre foi um objetivo principal do regime. Assotada por bombardeamentos sem fim ao longo de meses, a cidade foi frequentemente atacada, incluindo as suas escolas, hospitais e mesquitas.

É de enorme importância para o regime expulsar os opositores e recuperar Guta Oriental, de importância estratégica e que representa uma ameaça direta para o governo. Esta região esteve sitiada durante 7 anos, e fazia parte das zonas de redução da tensão definidas no processo de Astana, acordado pela Turquia e pela Rússia. Não obstante, o próprio regime a coligação entre a Rússia e o Irão, centraram os seus ataques na região sob o pretexto de estarem a combater grupos terroristas. E o resultado desta posição foram fortes bombardeamentos, que obrigaram os opositores a render-se ou a serem evacuados para o norte da Síria – zona debaixo do controlo turco – depois da mediação da Rússia.

Depois do processo de evacuação, Duma passou a estar sob o controlo dos militantes da Yeish al-Islam. A Rússia fez a mediação entre este grupo e o regime sírio. Na sequência do acordado com a Rússia, a Yeish al-Islam continuaria em Duma e garantiria a ordem pública na cidade, enquanto força policial. Mas este acordo não foi aceite por Assad. E as negociações desmoronaram-se depois da Yeish al-Islam ter recusado abandonar Duma. E foi precisamente neste momento que aconteceu o ataque com armas químicas.

Numerosos civis morreram neste ataque. E por isso, o grupo teve que aceitar ir para o norte da Síria. A exigência de permanecer em Duma, teve como consequência três ataques com armas químicas. Devido ao aumento dos receios de mais ataques químicos contra a população civil, a Yeish al-Islam aceitou ser evacuada, a pedido dos civis. Desta forma, foi garantida a queda de um dos mais importantes bastiões da oposição síria, mesmo ao lado do centro do regime de Damasco.

O custo humano de uma operação militar para recuperar Duma seria enorme. O acordo de evacuação evitou essa situação. Sabia-se que a Yeish al-Islam estava a construir linhas defensivas, e que estava a armazenar munições e armas pesadas nos seus paióis em Duma. Adicionalmente, este grupo destacava-se dos outros devido à sua capacidade militar entre os grupos da oposição. A defesa de Duma representaria um enorme custo para o regime. Foi isso mesmo que aconteceu em Derae, onde a operação militar para entrar nessa cidade se prolongou durante meses, e obrigou o regime a pagar bem caro por essa conquista.

O ataque com armas químicas, alegadamente cometido pelo regime, livrou Assad de um grande potencial custo e permitiu-lhe obter um resultado rápido e fácil. Apesar de ter sido usado um método contrário aos direitos humanos, o uso de armas químicas representou um grande benefício para o regime.

Desde que não provoque uma reação internacional, o custo de usar armas químicas representa a solução mais barata para o regime. O governo de Damasco usou os seus agentes químicos por 215 vezes desde o início da guerra. Diz-se que o regime recorreu novamente ao uso de armas químicas, depois de constatar a insensibilidade da opinião pública internacional. Além disso, o regime de Damasco conta com o apoio da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, e pode ter recorrido a estas armas contando com a proteção russa incondicional em termos militares.

Numa equação da qual fazem parte a omissão dos valores humanitários e a falta de sensibilidade da opinião pública internacional, podemos dizer que os ataques com armas químicas são a melhor solução, do ponto de vista de Assad.

Esta é a opinião sobre este assunto de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais (SETA)


Etiquetas: armas químicas , Duma , Síria

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