A transformação da estrutura social na América Latina

Como devemos analisar a nova família latina, que recentemente começou a surgir? A análise do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro da Academia de Polícia e coordenador para a América Latina da Agência de Coordenação e Cooperação da Turquia (TIKA).

A transformação da estrutura social na América Latina

A Atualidade na América Latina / Capítulo 14

As pessoas da América Latina são em geral vistas como pessoas felizes e de sangue quente, que adoram a vida e tentam sobreviver. Mas fazendo um olhar mais profundo, na realidade muitas vidas parecem ser fortalezas destruídas no seu interior. Reparar estas fortalezas, reabilita-las e tentar fechar tudo para começar outra vez, é uma situação que muitos latinos tentam concretizar.

Os latinos correm atrás dos seus amores. Estar apaixonado e agir em função do amor, é algo pelo qual os latinos estão dispostos a sacrificar tudo. Na América Latina há canções de amor de autores clássicos, tal como na Turquia. Em paralelo com as rápidas mudanças na sociedade, estão também a mudar os estilos de música. Recentemente, tornou-se muito popular o reggaetón, um estilo de música sensual e que apela imediatamente ao desejo.

A cidade de Medellin na Colômbia é o novo centro deste estilo musical, que na realidade começou em Porto Rico. A vida social e as relações sociais na América Latina estão a mudar. Quais são os principais elementos desta mudança? Como devemos analisar a nova família latina, que surgiu recentemente?

É possível observar os desenvolvimentos na mudança das famílias e da nova geração, na América Latina. Uma dessas mudanças, é o facto de existir uma geração que não se quer casar. O casamento deixou de ser sagrado na América Latina, e pelo contrário, é visto como uma instituição associada a um bom número de problemas. As mulheres que querem ter filhos, agora só querem ter um filho e não querem um marido, e muitas vezes preferem ter um cão. As mulheres com uma carreira profissional e de sucesso no seu trabalho, é isto que preferem. E como consequência desta situação, passou a ser normal viver sem casar. A geração que foi casada pela igreja e que viveu segundo as regras católicas, entrou agora na terceira idade. Por exemplo, atualmente quando duas pessoas vivem juntas durante dois anos, passam à luz da lei a ser consideradas como casadas. E quando estas pessoas decidem separar-se, para voltarem a viver sozinhas, as leis que se aplicam à separação em termos da repartição de bens, são as mesmas que se aplicam às pessoas casadas. Quando duas pessoas vivem juntas, se uma delas morre, a outra tem os mesmos direitos naturais atribuídos ao marido ou à mulher.

Outro desenvolvimento de grande impacto no continente, é a taxa de divórcio. Existe um grande número de pessoas divorciadas depois de terem filhos, ou que se separam depois de algum tempo casadas. É muito normal encontrar pais que têm filhos resultantes de várias relações.

As pessoas que se divorciam após um casamento com filhos, vivem juntas com outras pessoas ou voltam a casar-se. E esta nova família, com filhos de diferentes casamentos ou de outras relações anteriores, transforma-se numa estrutura com camadas completamente diferentes e interessantes. A estrutura familiar mais alargada no continente, representa uma realidade social em que existe um casamento único. Apesar desta situação parecer ser a solução do problema, dificulta as relações das crianças com os diferentes passados, devido às diferentes relações das suas mães e pais. Estas relações fracassadas, na maioria das vezes não têm qualquer vencedor e só criam mais problemas sociais, ao criar mais contextos de crise.

Outra realidade no continente, é o rápido aumento da comunidade LGBT. Entre todas estas polémicas, a igreja sempre foi um ator popular. As igrejas opõem-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, e algumas estão contra a vida matrimonial sem casamento. Há alguns anos, os abusos de menores por parte de membros da igreja fez reduzir muito a força espiritual da igreja no continente. O cristianismo passou, pouco a pouco, a transformar-se numa peça dos elementos morais e num elemento da cultural geral, mais do que uma religião.

Esta é uma realidade que não se verifica apenas na América Latina. Esta é uma transformação que ocorre em geral nas comunidades ocidentais ou ocidentalizadas, que caminham todas para esta situação. O problema real desta situação, é estarem a ser questionadas, uma a uma, as estruturas principais que suportam o estado e o pacto social. A família, o estado de direito, o papel da igreja e as principais regras sociais, estão todos a ser afetados por esta mudança social. Estão a crescer muito rapidamente os grupos culturais e religiosos muito conservadores, que se opõem a esta transformação. E está também a ser destruída a base social desta ordem no ocidente, que se alarga por todo o mundo com a sua experiência de criação de um estado moderno, através do pacto social. Neste período, em que as bases para o estabelecimento do estado no oriente também se debatem com este problema que destrói o modelo ocidental, é preciso discutir o futuro do pacto social que será acordado nas comunidades do mundo, quais os seus métodos e qual a sua forma.

Uma consequência muito natural desta situação, é que o sistema internacional será discutido com uma inclinação social inspirada na globalização, que ditará o futuro do mundo. O mundo está novamente, e pouco a pouco, a entranhar-se em polémicas concretas e em abordagens filosóficas.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia e coordenador para a América Latina da Agência de Coordenação e Cooperação da Turquia (TIKA)



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