A política da América Latina está em renovação

Devido à crise na Venezuela, os problemas e os desenvolvimentos na política interna do país desde 2 015, fazem com que a Venezuela seja a Síria da América Latina. A análise de Mehmet Ozkan.

A política da América Latina está em renovação

A Atualidade na América Latina / Capítulo 9

A crise na Venezuela e na América Latina está a aprofundar-se e a tornar-se mais complicada. Até agora, não surgiu um resultado positivo das negociações que continuam entre a oposição e o poder na República Dominicana, e a maioria das pessoas não espera nada deste processo.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, declarou que as eleições no seu país terão lugar a 22 de abril de 2 018, mas a oposição protesta contra estas eleições. Todo o mundo dá como certa uma nova vitória de Maduro, porque não é possível realizar um ato eleitoral transparente nas condições atuais. A Venezuela, é atualmente uma bala perigosa que ataca a América Latina. Como se irá resolver este problema? Qual é a política dos países da América Latina?

Devido à crise na Venezuela, os problemas e os desenvolvimentos na política interna do país desde 2 015, fazem com que a Venezuela seja a Síria da América Latina. Pensa-se que cerca de 4 milhões de pessoas abandonaram o país. Não existe dinheiro vivo na Venezuela e a inflação já atingiu os 2 500%. Devido à desvalorização do bolívar, a moeda venezuelana perdeu praticamente todo o seu valor. De acordo com o câmbio oficial, 1 dólar americano vale 3 400 bolívares. Mas no mercado negro, um dólar custa 240 mil bolívares. Existe portanto uma diferença de cerca de 80 vezes entre a cotação oficial e o câmbio ilegal.

Os venezuelanos só podem obter um máximo de 10 dólares por dia, e por isso a principal forma de pagamento passou a ser a transferência bancária. Dito de outra forma, o país enfrenta um problema económico e social muito sério.

Enquanto a Venezuela sofre estes problemas, os Estados Unidos salientam com frequência que uma intervenção militar é atualmente uma opção. Os europeus são menos sensíveis a esta questão e apenas acompanham a situação. O Vaticano tentou por duas vezes tomar iniciativas para ser alcançada a paz entre o poder e a oposição, mas das duas vezes fracassou. Os países latino-americanos onde existem governos de esquerda, criaram um grupo não oficial como o Grupo de Lima, e tentam ter uma posição comum sobre a Venezuela. A posição principal deste grupo, que mantém reuniões ao nível dos seus ministérios dos Negócios Estrangeiros, é de oposição a Maduro e de críticas ao líder venezuelano.

Infelizmente, a questão principal que é mostrada pela situação na Venezuela na América Latina, é de que está esgotada a política no continente. A política é essencialmente a arte de resolver as crises. Não é criticar, falar ou reagir. A crise venezuelana é uma bala de problemas que ganha dimensão devido à crise dos refugiados. Este problema irá provavelmente aprofundar-se ao longo dos próximos anos. Caso os problemas continuem, espera-se que mais venezuelanos abandonem o país. Apesar dos Estados Unidos falarem de uma intervenção militar para além de todas as outras opções, até agora ainda não conseguiram encostar seriamente a Venezuela a um canto do ponto de vista económico. Apesar de alguns altos responsáveis venezuelanos terem sido alvo de sanções, como a proibição de viajar para os Estados Unidos, as empresas americanas continuam a comprar petróleo à Venezuela e ainda consideram esta situação como uma oportunidade.

A Venezuela tem uma relação muito próxima com a Rússia e com a China para sobreviver. A Rússia desempenha um papel no país, tal como o faz na Síria. Moscovo apoia política e economicamente a Venezuela, mas tenta colocar-se numa posição de fácil retirada quando é necessário. Esta situação, tanto faz da Rússia um país chave, como lhe dá a facilidade de se reposicionar novamente no futuro em função dos desenvolvimentos.

O Irão tinha um grande interesse pela Venezuela, mas quando Rouhani chegou ao poder os dois países afastaram-se. Por detrás desta distância, está o facto do Irão ter assinado o acordo nuclear com os países ocidentais. Segundo este acordo, o Irão vai abster-se de qualquer  relação contra o Ocidente que ponha em perigo o tratado que assinou, pois este acordo garante vantagens económicas. Hassan Rouhani não realizou até agora nenhuma visita à América Latina, quando Ahmedinejad o fez por 8 vezes.

Mais do que ninguém, os países da América Latina devem encontrar uma solução para a questão da Venezuela. Mas até ao momento isto não foi possível. Em breve haverá eleições em países chave do continente. Para além da Colômbia, Brasil e México, haverá também eleições no Paraguai e em alguns países da América Central.

Pela primeira vez, não existe nenhum candidato credível que surja destacado e não se sabe quem ganhará as eleições. Estes resultados eleitorais irão dar uma nova abertura ao continente, principalmente num período em que a política de esquerda está muito debilitada. Vamos por isso ver para que tipo de política se irá dirigir o continente. Os novos líderes vão passar por um sério exame.

A América Latina precisa de uma nova abordagem política. Os problemas são muito profundos e estruturais. Hoje em dia, e enquanto o sistema global muda e se transforma muito, estes novos líderes também decidirão que tipo de papel vai desempenhar a América Latina na política global. Sem dúvida que o seu primeiro teste será a Venezuela.

Atualmente, há um retrocesso muito sério na produção de política. E se estes novos líderes não criarem uma nova visão para a América Latina, o continente irá com grande probabilidade transformar-se numa zona iludida onde avançam a Rússia e a China, e onde os Estados Unidos atuam de forma reflexiva para protegerem o que possuem. É preciso olhar para a América Latina no período que se segue, a partir deste ponto de vista.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Doutor Associado Mehmet Ozkan, académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da Agência de Cooperação e Coordenação da Turquia (TIKA)



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