A colonização mental na América Latina

A perceção latina dos outros mundos, na realidade não é diferente, de forma alguma, da dos ocidentais, que criticam constantemente. A análise de Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da TIKA.

A colonização mental na América Latina

A Atualidade da América Latina (Capítulo 8)

No geral da América Latina, há um grande número de informações escassas nas análises e estudos de política externa, sobre os países de fora do continente. Podemos constatar isto tanto nos principais órgãos de comunicação social por todo o continente, como também ver facilmente esta situação nos muitos erros de informação, e em particular na superficialidade das teses e no esforço para obter melhores resultados, usando pequenas informações. Mas como se pode explicar esta situação na América Latina, que parece estar mais ligada ao mundo?

A perceção latina dos outros mundos na realidade não é diferente de forma alguma da dos ocidentais, que criticam constantemente. Isto porque apesar de falarem espanhol e português, são completamente ocidentais as dinâmicas reais que estabelecem os mecanismos de análise e as suas habilidades cognitivas, nos seus mundos de pensamento. Por esta razão, não surge uma análise justa e saudável. Enquanto que por um lado criticam até não poderem mais o ocidente, na realidade fazem o que quer o ocidente, realizando um auto orientalismo.

Na América Latina, são muito erradas as análises sobre a política externa de muitos países, incluindo a Turquia. Algumas análises estão apenas cheias de dados e não dizem nada. Outros, de vez em quando, vão mais além da informação errada e unilateral exagerada pelo ocidente.

Muitos investigadores e um bom número de académicos não têm a preocupação de desenvolver um ponto de vista diferente. Pelo contrário, vivem numa atmosfera egocêntrica usando o seu lápis em temas muito específicos do seu pequeno mundo. Quando a esta situação se acrescenta uma abordagem como se não houvesse um sentido nas abordagens interdisciplinares, surge então um grupo de estudos com base na superficialidade.

Não sobra muito para o resto da experiência intelectual, produzida pela política esquerdista durante o período da guerra fria. O continente fica aprisionado pelas pessoas classificadas como sendo académicos, mas que não merecem ocupar o espaço dos intelectuais, tal como acontece em todo o mundo. Do continente não saem abordagens diferentes, para além da teoria da “dependência”. É preciso avaliar esta situação neste contexto.

Mas na realidade, a América Latina tem uma vida em cores diferentes, muito dimensional no aspeto da sua vida social e política, com os seus exemplos e exemplares onde se podem criar todo o tipo de teorias de cima abaixo. Infelizmente, não há muitos académicos que tenham até agora conseguido ver estas riquezas. O seu real motivo é a ausência do paradigma da não ausência de informação. Tal como disse Thomas Kuhn, a informação não avança cumulativamente, mas sim avança ao desenvolver abordagens que comentam a experiência a partir de um novo ponto de vista. No continente, ainda não surgiu uma geração intelectual que possa produzir um paradigma da forma indicada por Kuhn. Não se sabe o resto e o depois, mas até que se comecem a diversificar os recursos de informação no continente, não parece possível que esta abordagem avance.

Aqueles que se destacam no continente são os que tentam comentar a experiência do continente, copiando da melhor maneira a estrutura metodológica ocidental. Mas esta situação não cria um valor subjetivo, sem que o faça um valor continental. Torna-se apenas num depósito de informação ou numa matriz de Erlenmeyer.

Desde 2 015, o ano em que vim para este continente, as minhas observações sobre a Turquia, o Médio Oriente e a política mundial em geral, são sempre verificadas por todos. Quando se classifica e controla a literatura sobre a nossa região, é muito provável que isto seja visto. No continente, parece suficiente ir a estas regiões para que uma pessoa ser torne perita em Médio Oriente ou sobre a Turquia.

Muitos dos principais órgãos de comunicação social que não se apercebem desta situação, não se abstém de publicar as teses destes autores. Por exemplo, há autores e comentadores de prestígio que discursam sobre a mudança de sistema na Turquia, como se fosse uma votação para escolher entre o secularismo e o islamismo. Há que salientar em particular, que os principais órgãos de comunicação social recorreram aos comentários dos representantes da estrutura terrorista da FETO no continente, na noite do golpe do 15 de julho.

Infelizmente, ainda não temos um interlocutor sério no continente, no sentido de partilhar a informação e fazer intercâmbio com a Turquia e o Médio Oriente. A Turquia deverá designar urgentemente um adido de imprensa para o continente, o mais depressa possível. Além disso, devemos urgentemente enviar uma geração que saiba para o continente, e que considere que a língua espanhola traz benefícios para além do turismo, da salsa ou do romantismo de Che Guevara. Porque quando se difundem duas notícias erradas e negativas nos órgãos de imprensa sobre a Turquia, o seu reflexo no continente é observado como um efeito em duplicado.

Esta foi a opinião sobre este tema do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da Agência de Coordenação e Cooperação da Turquia (TIKA)



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