Falar a língua do coração na era do sentido perdido

No seu artigo de 4 de novembro de 2 017 publicado no jornal Daily Sabah, Ibrahim Kalin – o porta-voz da presidência da Turquia – fala sobre a importância da linguagem.

Falar a língua do coração na era do sentido perdido

De acordo com o site oficial da Ethnologue – um recurso online interativo para as línguas mundiais – existem mais de 7 mil idiomas em todo o mundo. Algumas destas línguas são faladas por centenas de milhões de pessoas, enquanto que outras são apenas usadas por pequenas comunidades. Do total de línguas no planeta, há 23 idiomas que são falados por mais de metade da população mundial.

Todas as línguas têm o mesmo objetivo e a mesma função: transmitir pensamentos, os sentidos e os sentimentos entre as pessoas. No diversificado mundo dos idiomas, nós expressamos as nossas opiniões e os nossos sentimentos, e também dizemos algo às outras pessoas. Determinamos o sentido dos nossos atos através das palavras e das frases. Idealmente, resolvemos as nossas diferenças através da comunicação racional. Mas será que falar a mesma língua nos permite sempre expressar todo o sentido?

Falar a mesma língua, nem sempre nos permite superar os nossos conflitos e desacordos. E é quando chegamos a este ponto, que precisamos mais do que habilidade linguística, de capacidade para chegar aos corações e às mentes das outras pessoas. Este é o ponto que Rumi mostrou, quando disse que “falar o mesmo idioma do coração, é mais importante do que falar a mesma língua”. Os pensamentos cheios de sentido, apesar de serem expressados através da língua, só ganham sentido quando chegam aos corações e não às mentes dos nossos interlocutores. Os pensamentos, quando se exprimem através do idioma do coração, podem deixar uma influência nos nossos espíritos e nas nossas mentes.

As palavras com origem no coração apenas podem ser ouvidas quando se dirigem a outro coração. Isto significa que devemos ensinar os nossos corações a falar com outros corações. Rumi acreditava que todas as pessoas têm esta capacidade natural, de conseguir falar este idioma.

Na realidade, o coração está no centro da tradição intelectual islâmica, é um órgão epistémico e tão importante como a razão e o intelecto. O coração não é apenas a residência dos sentimentos e da razão, mas também um lugar onde se depositam as ideias e os sentimentos. Um dos erros que custa muito caro à filosofia moderna, é o facto de transformar o coração humano num talento psicológico, que apela aos sentimentos e nada mais.

A razão e o coração não são inimigos um do outro. Pelo contrário, formam o ser e completam-se. Na ausência de um deles, a pessoa torna-se vazia e incompleta. A razão e o coração não podem ocupar todos os nossos pensamentos e sentimentos, porque nós somos mais do que uma máquina cognitiva. Nós somos pessoas que sentem, rezam, choram, ficam felizes com a beleza e que pensam sobre o sentido da nossa existência neste mundo.

O coração não será suficiente por si mesmo, para mostrar clara e logicamente os nossos pensamentos e ideias. Quando o coração e a razão existem em conjunto, conquistamos um autorrespeito completo, ou seja, um ego que observa do ponto de vista dos valores supremos do mundo, para além dos princípios racionais. Nós criamos o sentido com a nossa razão e o nosso idioma. Mas podemos chegar ao sentido real das coisas. Mas é correto que as coisas nos oferecem algo, como as estruturas que têm um valor e um sentido. É um lugar onde o coração e a razão se nutrem um ao outro, para criar um sentimento complementar para a realidade.

Quando regressamos a Rumi, temos que colocar a pergunta: por que é que ele preferiu o idioma do coração, em vez de optar pela mesma língua? O seu motivo é simples mas é muito profundo. As pessoas que têm o mesmo mundo de idioma, têm opiniões diferentes. Mas o idioma do coração supera as pequenas diferenças e faz crescer para níveis superiores as perceções, aumentando o potencial de captação das pessoas. Esta situação parece subir ao ponto mais alto de um monte onde se pode ver todo o vale, e não apenas uma parte da paisagem. Quando subimos até ao ponto mais alto, aprofunda-se também a nossa perceção. Esta perceção mais aprofundada, mostra-nos qual é o melhor caminho na direção da maturidade intelectual, da crença, da virtude e da misericórdia. Estes valores e princípios trazem ao de cima a parte mais valiosa da nossa humanidade.

É assim que Rumi nos explica o motivo de termos uma atração universal, apesar da maioria dos seus poemas terem sido escritos numa determinada época e numa determinada língua. Como todos os grandes mestres, Rumi focou-se em chegar aos sentidos universais e permanentes, indo mais além das expressões pessoais das coisas. Rumi perseguiu o sentido mais do que a forma, mas apesar de o fazer, nunca se esqueceu da forma. No final, Rumi é um poeta que foi capaz de expressar através de histórias atraentes nos seus poemas, os sentidos mais profundos. Ele sabia que o permanente foi o sentido por ele e concentrou-se no sentido. O sentido faz de nós livres.  



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