O fim da civilização ocidental?

A análise da atualidade por Erdal Simsek.

O fim da civilização ocidental?

Uma reunião muito importante teve lugar na Turquia na semana passada. O nome deste encontro foi Fórum Internacional das Civilizações.

O discurso que o presidente Erdogan da República da Turquia fez durante esta reunião, assumiu uma natureza histórica. Não vi nenhum ocidental a comentar o seu discurso, por causa do remoinho em que se encontra o mundo ocidental à procura dos seus valores atuais. Mas não tenho qualquer dúvida de que eles falarão, terão longas discussões e irão escrever textos amanhã sobre o que disse o presidente turco.

O facto de Erdogan, o líder da Turquia, ter falado sobre esta crise de civilização quando na verdade esta questão deveria ser analisada por pensadores, escritores e filósofos, deixou-me embaraçado enquanto escritor.

Eis, em resumo, o que disse Erdogan durante o fórum:

“Estamos a fazer um esforço para nos dirigirmos para a civilização. Não estamos num movimento de construção da nossa civilização, mas sim num movimento para a reavivar. Tendo em conta que são as crenças que determinam a essência da civilização, é por isso imperativo que mostremos a nossa diferença. Apesar da ciência e da tecnologia serem importantes, não poderemos chamar a estes dois elementos uma civilização caso não estejam também presentes a fé e a solidariedade social. Na nossa civilização, a humanidade é mais honorável de todas as criações”.

O mundo ocidental continua a falar sobre os direitos humanos desde a década de 1 950, mas os desenvolvimentos nesta questão são bastante alarmantes. O presidente da Turquia também mencionou esta situação durante a reunião.

Hoje em dia, conceitos como a democracia, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a lei, perdem o seu significado sempre que estão em causa os interesses do Ocidente. Por exemplo, o mundo ocidental considera o referendo catalão como sendo ilegal e inválido, enquanto apoia o referendo ilegal que teve lugar no norte do Iraque. O mundo ocidental também fez vista grossa quando a polícia apreendeu as urnas de voto e exerceu uma força desproporcionada contra os votantes.

O mundo ocidental também se manteve em silêncio quando altos funcionários judiciais espanhóis deram uma ordem ilegal contra políticos catalães. Como este incidente teve lugar no Ocidente, naturalmente todos se mantiveram em silêncio para protegerem os seus interesses.

Não satisfeito com tudo isto, o governo espanhol anulou o autogoverno catalão e decidiu convocar eleições locais no prazo máximo de 6 meses. Como disse antes, o incidente aconteceu no Ocidente e o silêncio protege os seus interesses.

O que aconteceu então ao Ocidente? O que aconteceu aos intelectuais ocidentais que desafiaram Roma, César, ditadores, lordes feudais, reis e rainhas?

Tanto no Ocidente como no Oriente, quando os intelectuais de uma região do mundo se mantém em silêncio ou não se atrevem a falar, isto implica que o mundo perdeu o seu equilíbrio. Não terão os exércitos do Ocidente massacrado mais de 4 milhões de pessoas no Médio Oriente desde 2 001 por causa disto? E pior ainda, quase 80% destas vítimas foram mulheres, crianças e civis idosos. Se os intelectuais ocidentais se tivessem oposto a isto, poderiam os seus exércitos ter sido assim tão displicentes?

O que aconteceu aos sucessores dos intelectuais que desafiaram pessoas cruéis como Hitler, Mussolini, Estaline e Churchill? Quantas pessoas escrevem hoje em dia alguma coisa sobre filosofia no mundo ocidental? Os artigos publicados nas revistas são lidos por duzentas ou trezentas pessoas na melhor das hipóteses. A situação é grave. Na verdade, atingimos um mínimo absoluto de humanidade.

A situação no Oriente também não é de forma nenhuma brilhante. Os artigos que produzem ideias não são lidos a um nível suficiente, apesar da situação ser melhor do que no Ocidente.

As pessoas do Ocidente afastaram-se da sua procura por conhecimento e sabedoria, à medida que o capital se alastrou e com o aparecimento de novas formas de produção a partir da década de 1 980. A humanidade acelerou o ritmo do seu consumo já de si excessivo. Quanto mais se consome, mais tempo se tem que despender para servir o capital. E no final, fica-se preso na forma apertada da cultura pop.

O Ocidente transformou-se num mundo de comunidades que se renderam à estrutura dominante, e que acredita nela sem a questionar. E hoje, eles veem os seus filmes a várias dimensões com pipocas na mão, enquanto milhares de pessoas morrem no Oriente, no Médio Oriente e em África, devido às decisões dos soberanos políticos do Ocidente. Mas agora esta tragédia começou lentamente a aproximar-se deles. Hoje em dia, as capitais ocidentais são tão perigosas como as capitais dos países onde há guerras civis.

Tendo em conta que a sociedade ocidental não tem qualquer pensador ou líder com honra intelectual que se oponha a este estado de coisas, eles não têm outra opção senão obedecer às ordens dos soberanos.

Por outro lado, a Turquia tem um presidente com uma visão de civilização e é um país com intelectuais produtivos. Erdogan, o presidente da República da Turquia, menciona e sublinha a civilização em todos os encontros políticos e económicos internacionais em que participa.

No Fórum Internacional das Civilizações, ele uma vez mais chamou a atenção para o remoinho para o qual a humanidade está a ser puxada.

Devido à notável operação da Turquia, a organização terrorista DAESH está a ser expulsa da nossa região. Os apoiantes e financiadores desta organização sangrenta viram que não têm qualquer hipótese de existir na nossa região. Existem milhares de membros oriundos do Ocidente nas altas patentes do DAESH. Assim que a Turquia eliminar esta organização terrorista do Médio Oriente, estes membros ocidentais do DAESH irão regressar aos seus países. Estes membros irão tornar-se num sério problema para os seus países.

A subida do racismo e do nazismo, despoletada pelo discurso político populista do Ocidente, irá entrar em confronto com a outra mentalidade terrorista que agora será as suas crianças.

Este conflito irá perturbar todas as sociedades ocidentais. Todos nós vamos esperar para ver se o mundo ocidental irá abandonar a democracia contra as suas crianças terroristas, tal como o fazem no Oriente sempre que isso serve os seus interesses. Eles referem-se à sua cultura marginal e destrutiva em vez de referir a sua democracia.

No entanto, dar simplesmente por perdida a civilização ocidental seria um ato de ignorância, para não dizer outra coisa. Eu acredito que o mundo ocidental irá atingir os valores universais em resultado de um novo conflito interno. Isto porque as nações que criaram civilizações sempre adotaram uma atitude digna do seu passado histórico, em todos os pontos de viragem da história. Talvez hoje em dia, a grande maioria destas nações não estejam cientes da sua responsabilidade histórica. Mas de forma reflexiva, elas irão fazer o que for necessário nesta missão.



Notícias relacionadas