A visita à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos de Moqtada Al-Sadr

A análise de Cemil Dogaç Ipek, investigador de Relações Internacionais na Universidade Ataturk, sobre a visita de Moqtada Al-Sadr - um dos mais importantes líderes dos xiitas do Iraque.

A visita à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos de Moqtada Al-Sadr

A visita à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos de Moqtada al-Sadr, um dos mais importantes líderes dos xiitas, foi alvo de grande atenção. No programa desta semana, vamos analisar as visitas de al-Sadr e as suas repercussões na região.

Todos os atores políticos no Iraque estão-se a preparar para um novo período político. Nos últimos dias, registaram-se algumas iniciativas políticas interessantes no Iraque e que têm impacto direto sobre a Turquia e sobre os outros países da região. Neste contexto, as visitas à Arábia Saudita e depois aos Emirados Árabes Unidos de Moqtada al-Sadr - um dos líderes xiitas mais ativos no Iraque – são um desenvolvimento que merece atenção. Estas visitas podem ser consideradas como uma iniciativa no contexto da política de pressão regional seguida pela Arábia Saudita, contra o Irão.

O Irão foi o ator mais afetado pela atmosfera que se criou na sequência da ocupação do Iraque em 2 003. Durante esse período, o Irão aumentou a sua influência no Iraque, ao apoiar a administração de Bagdade que estava em dificuldade na sua luta contra o DAESH, depois desta organização ter emergido no país. Durante este período, as declarações e afirmações de certas figuras religiosas e políticas iraquianas, foram no sentido de que era necessário limitar a influência do Irão sobre o Iraque, e esta perspetiva teve um amplo apoio na opinião pública. Estes desenvolvimentos foram seguidos de perto e apoiados em grande medida pela Arábia Saudita e por outros países da região, incomodados pela influência do Irão no Iraque.

Esta fraqueza no capítulo da segurança, revelada pela administração iraquiana, que não foi capaz de criar uma estrutura de segurança estável desde 2 003, começou a ser mais visível em 2 014. Grupos de voluntários das milícias Hachd al-Chaabi intervieram no terreno, para compensar as lacunas do exército e da polícia na luta contra o DAESH. Toda a gente sabe do papel desempenhado pelo Irão na formação e no armamento da maioria destes grupos. E em consequência desta intervenção, a influência do Irão sobre o Iraque passou a ter uma aparência mais legítima.

Al-Sadr, que tem uma força de militantes que a ele estão ligados e que é capaz de influenciar certos grupos no seio da Hachd al-Chaabi, é um líder que sempre teve reações inesperadas na política iraquiana. Ele tem apoiantes de peso entre a população, pois ele é oriundo da família al-Sadr, que ocupa uma posição muito importante no seio dos ulemás xiitas no Iraque. Nos últimos anos, Al-Sadr viveu vários momentos de tensão e teve conflitos com os americanos e com a administração de Maliki. O nacionalismo iraquiano que ele expôs regularmente nos seus discursos políticos, fez de Al-Sadr uma figura xiita diferente das outras. Ele segue uma linha que sublinha a importância da bacia de Nadjaf e da identidade árabe no mundo xiita, e adota comportamentos que ora se aproximam do Irão, ora se afastam desse país.

As visitas de Al-Sadr à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, foram alvo de atenção por parte da opinião pública. Certas iniciativas foram também realizadas este ano, para desenvolver as relações entre o Iraque e a Arábia Saudita, que se haviam deteriorado desde há muitos anos.

A Arábia Saudita, incomodada pela influência do Irão sobre o Iraque e motivada pelo desejo de enfraquecer esta influência, realizou uma visita ao Iraque na pessoa do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, pela primeira vez em muitos anos. O encontro de Al-Sadr com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed ben-Salman, mostra que Al-Sadr poderá ter na manga outras surpresas para a região.

Poderemos esperar que as prováveis iniciativas seguintes da Arábia Saudita, que segue uma política com vista ao isolamento do Irão, sejam as seguintes: aceitar a influência do Irão no Iraque e entrar em contacto com as figuras xiitas incomodados por esta situação, com o objetivo de os atrair para a órbita de Riade.

A Arábia Saudita vai nomear um novo embaixador em Bagdade. A abertura de um consulado em Nadjaf faz parte desta iniciativa saudita, bem como a abertura do posto fronteiriço de Arar, que tinha sido encerrado há anos. Esta fronteira será aberta aos peregrinos iraquianos durante a peregrinação. Adicionalmente, a Arábia Saudita estará também em grande medida pronta a dar apoio financeiro aos trabalhos de reconstrução necessários no Iraque, nas regiões retomadas pelo governo das mãos do DAESH. Todos estes desenvolvimentos, mostram que dentro do objetivo de enfraquecer a influência do Irão no Iraque, a Arábia Saudita vai continuar a manter os seus contactos com os grupos sunitas, mas também aumentar os seus pontos de contacto com os partidos xiitas que têm influência sobre o governo em Bagdade.

 As visitas de Al-Sadr à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, são visitas aprovadas em grande medida pela comunidade xiita do Iraque. Al-Sadr foi acolhido por uma importante comitiva, composta maioritariamente por iraquianos, após o seu regresso da Arábia Saudita. E isto pode ser considerado como um indicador do sucesso e da satisfação que esta visita causou no seu país.



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